sábado, 27 de novembro de 2010

lembrança

A visão embaça, a cabeça abaixa, levanto-me e escorro para a direita.
As coisas se repetem, as coisas se repetem. Já começou? Já começou?
Escuto falarem de novo. Já começou? Não respondo. O mundo já não existe mais.
Já não existe mais. Existe mais. Existe mais do que era o mundo.
A pulsação intensifica dentro das artérias. Doce aceleração.
A neblina me engole, me aperta. Meu pulmão se expande, meus olhos se fecham.
O escuro não dura muito. Luzes profanam o silêncio da minha mente.
Dou mais três passos que desconheço. Me ajoelho, me disseram depois.
Água brota das paredes agora. A água jorra das paredes.
Meu pulmão ainda pulsa expandido. O corpo sacode no meios das ondas.
Repentinamente a água rouba o lugar da neblina. Estou no Oceano,
Infinito em todas as direções. É tudo real, estou molhado e tudo mais.
Canso de nadar, muito tempo se passou. Levanto, de pé mergulho.
O cansaço não me permite respirar. Não consigo respirar.
Engulo água no desespero do afogamento. Mas não me molho por dentro.
Sinto sede, eu não me molho por dentro. Sinto sede. As coisas se repetem.
Sinto mais sede. Sinto a morte e a morte chega. De novo estou cercado, tudo escuro de novo.
Acho que está escuro, acho que eu morri. Me aperto contra o chão como um animal
alucinado, faminto. Sede. Abro meus olhos e a água se foi. 
Voltei, digo para as pessoas em volta, Meus amigos. 
Um deles sentado no chão com sua coroa dourada olha pra mim.
Conversamos por horas. Horas. Ele é pequeno e então ele é grande. Ele se transforma.
Se transforma em uma churrasqueira. Abro meus olhos. Mesma cena, tudo azul.
Choro em baixo d'água pelo pequeno rei meu amigo. O lamento não é ouvido.
Nado para outro ambiente, o que é que eu tenho em mente? Nada, estou vazio.
Vazio, vazio, vazio. E isso me faz sentir ser como uma água viva. Molenga.
Eu sou uma água viva. Respiro aqui agora. Sou parte no oceano.
Aqui no fundo o fundo é raso. O sol ainda ilumina algas compridas
e anêmonas vermelhas me recitam poesias azuis. Meus amigos são todos peixes.
Choro por eles. Não sou ouvido. Me deito no fundo. Pessoa de novo.
Voltei, digo outra vez. Olho para eles e eles me olham.
A água escorre para o teto. De cima me ameaça. Palavras surgem.
As coisas se repetem. Profetizo deitado no macio. Sobre meios de transporte talvez.
Afirmo fatos surreais e tudo parece desenhado por Liechtenstein.
A garota me olha, me encara, sem alma. As coisas se repetem.
Quanto tempo se passou de verdade? Sinto a sede de novo.
Sento, deito, olho para o teto e escorro, liquidifico.
Sacudo minha cabeça. Rio do universo de todos eles.
Rio, e só observo. E só.

3 comentários:

  1. que agonia, parece ate que me afogo enquanto leio. muito bom

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  2. quase estragou meu domingo com as descrições que me remeteram clausura, mas, tá bem escrito, descrito, agoniantemente bom.

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  3. Você escreve muito bem e sabe fazer transparecer seus sentimentos. Parabens pelo excelente texto Erik

    Abraços saudosos

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