terça-feira, 5 de julho de 2011

Restaurante. (Refazendo a Recapitulação)

[aposto um aperto de mãos comigo mesmo que quem ler isso tudo gosta muito de mim.]

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Aquele emprego meia boca no restaurante do meu próprio pai está aos poucos se transformando na porcaria do emprego no restaurante do meu pai. Passo o braço pela testa, afastando a franja dos olhos e enquanto limpo umas das mesas de madeira no lado de fora, uma gota de chuva cai no espaço entre meus cabelos e a gola da camisa, escorrendo por dentro dela, escorrendo gelada pela minha pele até a calça. Nunca fui de reclamar da vida, mas quando não consigo mais pensar em nada de bom pra dizer já não chega mais a ser uma questão de escolha se eu reclamo ou não. A chuva engrossa pouco a pouco. Não, a chuva engrossa muito, a ponto de cada gota doer com o impacto; pego apressado os arranjos de flores espalhados pelas mesas e levo eles para dentro. José, um quarentão magro e já quase careca, o melhor garçom das redondezas, olha para minhas roupas molhadas enquanto vira uma cadeira de cabeça pra baixo. Só nós dois continuamos aqui de novo, pra fechar a casa. Nos juntamos para apressar o processo. Colocar as cadeiras em cima das mesas, fechar as janelas, contar o dinheiro – isso eu faço por vontade própria – , limpar o chão, secar o chão, lustrar o vidro dos quadros, fotografias, artigos de jornal e plaquetas de prêmios gastronômicos, regar as plantas que não vão aproveitar a chuva e, claro, o mais importante de tudo: jogar buraco. Além de apagar as luzes e trancar o lugar, né. Devem ser quase duas horas da manhã.

Em uma fotografia presa na parede, meu pai com seu chapéu de mestre cuca sorri em pé, os braços cruzados, ao lado de uma celebridade que a maioria das pessoas não faz ideia de quem seja. Ele sorri ao lado do herói de uma geração passada, um ator francês narigudo aí. Claro, uma mulher linda não podia faltar na mesa. Ela se olha no espelho enquanto acende um cigarro, as mechas loiras balançando aos ventos que vem da janela recém-aberta pelo fotógrafo entusiasmado que decide gritar ao mundo sua alegria. Que queria chamar todos à sua companhia.


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versão 1 (no mais puro nonsense. Algúm crítico de arte ainda acha um significado)
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Então, entrego para José um caderno de capa preta. São umas coisas que um amigo meu escreveu. Eu sei que você já foi escritor por um tempo, então disse e ele deu isso. Deu pra você ler e poder dizer se ficou bom ou não. Meu amigo deu.

Aaah sim, claro... já fui um grande escritor de pequenas histórias baseadas, baseadas na mitologia chinesa que sempre ao fim tinham um propósito. Uma moral, saca? Sei, isso eu já sabia. Então, você vai ler? Sim, sim, sim. Você vai ler até o fim? Sim. Sim? Sim, Sim... Sim. Sim. Sim, Sim, Sim, Sim!!!!!!!

Enquanto ele se entretêm, vou até a cozinha, secar logo os pratos recém lavados. O ar anda muito úmido nessa minha terra. Ia acabar tendo de secá-los amanhã de manhã se não fosse hoje. Hoje. Na volta para a sala sorrio e pergunto como vai a leitura.

Engraçado. esse tempo todo e você aí sem falar nada aqui. Mas falando sem parar na minha cabeça. Estava lendo as coisas escritas e acabei não percebendo que você tinha parado. Saca? No fim das contas, depois de prestar serviço à seus companheiros, eu diria que foi sim você que escreveu isso. E não um amigo feito ao passar de sua vida.
Saco.

Muita informação, ele termina dizendo, enquanto entrega o caderno a força em minha mão.
Relaxa, velho. Vou guardar isso de uma vez por todas.

Qual a moral? Você sabe, agora no final? Qual é a moral? Qual a moral no final?
O que você quer dizer com isso?
Que eu sou só mais um escritor michuruca de contos, histórias mentiras loucas sobre.. mentiras loucas baseadas, baseadas na mitologia chinesa? É isso, velho?
NÃO! Rapaz, você anda muito confuso. O que quiz dizer, na real, foi que todos nós somos.
E não tem mais discussão.



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versão 2 (sendo razoável com as mentes de quem se importa)
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José joga água cheia de sabão com um balde branco e eu com o rodo jogo ela de um lado para o outro sobre o chão de mármore e de madeira. Não são muitos os barulhos que se escuta lá de fora a essa hora da noite. A essa hora da manhã. O batucado ritmado dos curtos circuitos, ou seja lá o que for, nos postes elétricos. O vento pelas folhas não se pronuncia. Vejo pela janela passarem um cara abraçado com duas garotas. Os três morenos passam devagar, talvez estejam cambaleando um pouco. Ele olha para cima e elas para frente. Ele também procura morcegos entre as sombras. Ele também escuta o elétrico barulho dos postes. Elas, o próprio papo interno delas mesmas. Todo aquele afeto me faz perceber quanto frio estou sentindo. Visto um suéter velho do meu pai, esquecido em cima do balcão. Ao fundo, uma das garotas ri; provavelmente a mais baixinha, a que olhou para o lado quando uma luz se acendeu automaticamente enquanto eles passavam em frente ao prédio número 64. Nunca gostei dessas luzes que se acendem sozinhas. Quando termino de vestir o casaco, José está me encarando, como quem vê um fantasma. Ele anda em minha direção, levantando a mão esquerda apontando ela para meu ombro. Eu também já arregalo os olhos como quem vê um fantasma. BÚ ! Ele grita quase alto. Ha ha, quase tomei um susto, velho, quase.

Entrego-lhe um caderno de capa preta.
São umas coisas que um amigo meu escreveu. Eu sei que você já foi escritor por um tempo.
Ele deu pra você ler e poder dizer se ficou bom ou não. Meu amigo deu.
Aaah, ok, claro que eu leio... Escritor, poeta, você sabe também que nenhuma de minhas publicações foi um sucesso, certo? E que por isso eu não vivo mais de escrever.
Sei, isso eu já sabia. Gosto bastante do que você escreve e sucesso ou não; não é nada demais. Você só não teve muita sorte. Você vai ler então?
Sim, sim, sim.
Você vai ler até o fim?
Sim.
Sim?
Sim, Sim...

Na cozinha, seco logo os pratos recém lavados. O ar anda muito úmido nessa minha terra e eu ia acabar tendo de secá-los amanhã pela manhã se não o fizesse hoje. Hoje.
Na volta para a sala sorrio e pergunto a ele como vai a leitura.

Engraçado. Esse tempo todo e você aí sem falar nada aqui. Mas falando sem parar na minha cabeça. Estava lendo as coisas que seu amigo escreveu e acabei não percebendo que você tinha parado de falar. No fim das contas, depois de prestar serviço à seu companheiros, eu diria que, na verdade, foi você que escreveu isso.

Muita informação, ele termina dizendo, enquanto entrega o caderno a força em minha mão.
Relaxa, velho. Vou guardar isso de uma vez por todas.
Como assim?
Eu tava tentando escrever sem parecer comigo. Pelo visto não deu certo.
Se você quer não ser você mesmo... devia é de fazer teatro.
Ou ficar famoso.
É, quem sabe eu não acabo fazendo os dois ao mesmo tempo?
Aí é com você. Mas ainda acho que você é você demais pra essas coisas.

Nós vamos jogar ainda?
Não vai dar. Vou ter de ir resolver umas coisas.
Às três da manhã ?
Vai resolver o que?
Umas coisas, já falei.
O telefone toca estridente como sempre. José atende.
Bar do Lô, bom dia.
Entregar? A essa hora? O entregador vai embora as dez, infelizmente.
Só um segundo.
Ei, animal, quer ir entregar umas bebidas em uma festa não?
É, aló? Ok, vou passar o telefone para o gerente e ele vai tentar resolver seus problemas todos.
Alô, boa noite.
Boa tarde.
Bom dia então. O que vocês gostariam que fosse entregado na casa de vocês as três da manhã?
Sei, algumas cervejas, uma garrafa de vinho e um pedaço da torta especial da minha avó. Quer dizer, da torta especial da dona Maísa. Quantas cervejas? Ok. Dois pedaços? Dois pedaços. Como nós vamos entregar? Bem, o entregador já foi embora e nós estávamos fechando aqui... mas já que estou de bicicleta posso passar aí. Espera, aonde é que é para entregar? Qual o endereço? Ah, sim, Rua Camuirano? Ah, ok, é aqui perto. Três pedaços? Não. Dois pedaços da torta especial e um pedaço de cheese-cake? Ok. Então, logo logo devo chegar com as coisas aí. Ah, espera, vocês não falaram qual cerveja e qual vinho. Tem Heineken, Bohemia, Original, Antártica... o normal. Tá, então tudo bem. Vinho, vinho... que tal Casillero Del Diablo? Não, não estou sugerindo só pelo nome. Não é muito caro não. Não, não. Então é isso. Você anotou o preço? Anotou quanto deu? ok.
Ufa.
Do outro lado da linha, ao fundo podia-se escutar um pouco do bom e (quase) velho rockabilly tocando. Claro que imaginei a mulher pedindo como sendo uma pin-up das mais perfeitas. Claro. Loira. Não, ruiva. Foda-se, melhor morena mesmo no fim das contas. Que nem aquelas duas garotas andando com aquele cara. Quem dera eu estivesse com duas mulheres abraçando-me agora.
Ei, garoto, José diz, cutucando meu braço.
Que foi?
Melhor você ir entregar logo, tá ficando tarde.
É, tá ficando... já tá tarde.
Bem, vou-me também.

Levo as sacolas, cheias de coisas e as embalagens plásticas recheadas de tortas recheadas e um cheese-cake até a cesta de madeira da minha bike. A chuva já diminuiu um pouco, mas não o suficiente para deixar de ser um incomodo. José se despede, veste seu chapéu de esconder a careca e vai andando pelas sombras em direção a esquina. Apago as luzes, fecho o casaco, olho para o poste e para as folhas. Uma brisa ruge quase como um vento por entre as copas das árvores. Amendoeiras, amendoeiras. Quem sabe um pau-brasil? Alguns morcegos voam de uma escuridão para outra e eu pedalo minha bicicleta. E eu pedalo minha bicicleta.

continua em um próximo espisódio.


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