terça-feira, 26 de outubro de 2010

Ligação

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Você pega o telefone celular e me liga assim
me conta que está deitada sobre facas e navalhas
deitada sobre estiletes laminas e uma espada

diz que vai se cortar inteira
e que não acredita em mais nada que é sagrado
eu aqui do outro lado da linha assustado
porque nem sei quem é você, que me liga assim

penso em dizer
é engano
é engano

mas tu me contas que é a ultima ligação
e que a bateria já está quase acabando
diz isso tremendo e chorando

penso em dizer
eu te amo
eu te amo

qualquer coisa que possa ajudar

mas me conta que nunca mais quer saber de amor
que seu coração já está quebrado
que já passou da validade
que não tem conserto.
que está tudo acabado
diz isso firme, só soluçando

penso em dizer
que não sei o que dizer
e eu não sei o que dizer.

Porque eu sou um covarde

E eu só digo
que a vida pode ser triste
mas sempre será bonita
e que mesmo a morte é bonita
e que mesmo a pior doença é bonita.
O fim, o começo.
A dor e a alegria.
É só como se vê as coisas
o que importa.
Mas que é mais fácil ver
como a vida é bonita
estando vivo.
Porque os mortos não veem
mais nada.

Mas você só repete o que já disse antes
como se tudo já estivesse decorado
como se nada pudesse ser modificado

E digo tudo.
Digo que te amo
e pergunto teu nome
digo que é engano
peço que não desligue o telefone.

Porque tudo é verdade
porque é na tristeza
que as pessoas se ligam de verdade
você ri
de minha ironia inocente
juro que foi sem querer.

repetimos as palavras
várias vezes
(você já não tão convicta)
até que as palavras
se tornam só palavras
até que sua voz
parece ok

e você diz obrigada
obrigada estranho
eu te amo

e eu digo
de nada estranha
e desligamos
.

.

3 comentários:

  1. Nossa, ficou realmente muito bom, acho que é o melhor que eu ja li no seu blog

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  2. E já dizia Vivien Leigh em sua última cena no "Uma rua chamada Pecado": "Sempre acreditei na bondade de estranhos".
    Eu concordo muitissimo com todo jeito do sue texto, sr. Temporal.

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  3. é, eu também concordo. // agradeço os elogios. São sempre bons, ou quase sempre. mas esses foram. // o que seria do mundo sem estranhos, não é?

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