quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

rede

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Acordo de olhos bem abertos, como se por alguma estranha razão estivesse curado de algum tipo de doença incômoda. A poeira paira iluminada de leve pela luz que passa fraca por entre a cortina de pano fino avermelhado. Respiro fundo e escuto o chiado agudo da asma no fundo de meu peito. A poeira na mesinha ao lado de minha cama, a poeira pelo chão, a poeira dentro dos armários, a poeira nos meus sapatos encostados na parede. Poeira, poeira, poeira. É difícil de respirar. Saio do quarto para um espaço mais aberto. É cedo, bem cedo. Todos os adultos dormem na casa. Dormem até tarde. Respiro fundo, chiado. Puxo meu cabelo para baixo, vou no banheiro. Tento ouvir alguém falando ou andando, nada. Só meu pai roncando, uns pássaros animados e as folhas atacadas pelo vento. Meu pai sempre ronca. De novo, uma varanda. Essa tem o chão coberto por azulejos vermelhos escuros e frios que percebo com os pés descalços. Pilastras quadradas de tijolos cobertas com uma massa áspera atravessam o verde do plano de fundo. Entre uma delas e a parede branca da casa, uma rede comprida balançando como as folhas na pequena árvore ao lado. Resolvo subir nela por causa do frio do chão, os braços pra fora para me empurrar de um lado para outro. O conforto, os passarinhos e as folhas me colocam para dormir e acabo tirando um cochilo de novo.

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coloco esse texto aqui por perceber a estranha semelhança entre ele e o colocado anteriormente, sobre o afogamento. o ritmo, Talvez. engraçado, porque este eu escrevi a um mês mais ou menos e o outro foi a quase um ano inteiro. nem me lembrava dele até lê-lo um dia antes de postar aqui. de qualquer maneira essa nota de rodapé é mais um lembrete para mim mesmo. Para que me lembre do que o Vitor falou no caminho pro metrô e de todas as aplicações do comentário.

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