quinta-feira, 15 de julho de 2010

sanguessugas

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QUE SILÊNCIO
Puxa, é mesmo
mas agora estamos falando
acabando com o silêncio
não tem mais aquele zumbido
nos filmes é comum colocarem um
barulho grave em cenas sem som
tentando fazer o efeito que o silêncio faz
o silêncio não é a ausência de som.
O silêncio é um barulho.
Confortante. Solitário.
Carente. Ele demanda nossa atenção.
Como uma criança recém-nascida.
recém nascidos não demandam nada.
só gritam.
fazem barulho.
A noite é silenciosa.
Mais do que o dia.
A noite é uma criança.
Mentira, cara, a noite é barulhenta.
Mas diferente.
Sempre tem barulho e silêncio.
Não. Pode ter silêncio sem barulho.
Mas não tem barulho sem silêncio.
Puxa, e você devia pensar antes de falar, que tal ?
Você já bebeu quantas cervejas ?
Ein ?
A, umas quatro.
Quatro... e você já tá falando
essas merdas todas ?
que merdas ?
Ok, não tem barulho sem silêncio nem silêncio sem barulho.
Se não tivesse barulho como saberíamos o que é o silêncio ?
Já pensou o que um surdo acharia de nossa conversa ?
Ish...ufa, ainda bem que ele não ia poder ouvir. HAHAHA !
EI NÃO É ENGRAçADO NÃO.
Minha avó conhece um cara que ficou surdo.
Como ?
Conhecendo, oras.
Não ! há... você bebeu também. Como ele ficou surdo ?
Escovando os dentes...
Eita. Mas como ?
Não importa. Só importa que depois ele aprendeu leitura labial
e daí ?
Vai que tem algum surdo lendo a gente ?
Nossos lábios,
nossas palavras ?
como ? só tem a gente aqui...

Será que realmente faz silêncio na mente do surdo ?
Sem barulho não tem silêncio.
Nós só somos surdos mesmo quando morremos.
você sempre fala essas coisas... meio mórbidas.
Sempre tem o barulho dos nossos pensamentos.
Por mais que tentemos não pensar.
O pensamento sempre volta.
E volta.
Se continuar assim a gente vai acabar entrando em outras
discussões bacacas.
é... melhor parar mesmo.
essa barulheira toda me deixou cansado.
desliga a televisão.
e o aparelho de som.
os leitores podem ficar... não dá pra ouvir
os barulhos deles.
ei você... para de comer tanto doce... você engordou um pouco.
com quem você tá falando ?
a... nada não.
apaga as luzes, amor ?
ok.




e quando a gente sonha ?
que barulho faz ?
acho que não é nem silêncio nem barulho.
acho que é nada.
a gente só descobre depois.
ei, você tá aí ?
amor ? tá acordado ?
puxa... 

que silêncio.




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domingo, 4 de julho de 2010

com todos eles

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Preciso agora só reorganizar essas palavras.
Não, recolocar.
Reescrever, com uma letra mais bonita.
 Talvez seja como remodelar uma pequena escultura de massinha
(aquela de criança).
Puxa, isso realmente faz ressurgir em minha mente algumas memórias resplandescentes
de meu passado recorrente.
Essas palavras estão confusas.
Preciso criar algum sentido mais concreto.
Algo mais profundo.

Talvez deva retornar ao início e reler, para que alguma ideia nova surga em meu pensamento.
Mas, é provável que isso não me ajude em nada.
É melhor escrever olhando pro teclado mesmo, sem me distrair.
 Minha inspiração instantânea vem do teclado.
O consciente é o teclado.
Invoco de meu subconsciente todas as informações necessárias para completar um texto.
Completar os textos.

Minhas costas doem, minha cadeira está meio quebrada.

Você tecla com todos os dedos ?

Estranhamente, mesmo escrevendo muito, ainda uso só os indicadores.

Eles já são diferentes dos outros dedos.
São endurecidos, estranhos.
Meus canais de passagem.

Através de meus indicadores libero as imagens de minha mente em forma lírica.
Não tão lírica assim.
E já estou me contradizendo de novo.

Mas, enfim. Meu irmão deve ter um pouco de massinha no quarto dele.
Acho que vou fazer um elefante.
Ou uma cabeça.

Talvez ela pense.

Mas não vou fazer indicadores para ela.
Menos um para que eu me sinta inferior.
Preciso é aprender a escrever com todos os dedos.

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destranca

O vidro do remédio está cheio. O rótulo esconde o conteúdo informando o que o compõe. Confiamos.

O frasco tem um peso agora.
Evidentemente terá outro quando vazio.

Um homem aperta o vidro firmemente por entre os dedos.
O cenário é o banheiro de seu apartamento.
As paredes são cobertas por azulejos de cores básicas, azuladas.
Toalhas de alta absorção estão penduradas em pequenos ganchos brancos de ponta arredondada.

Os dedos do homem são finos e fios claros de cabelo, ou pelo, escapam por alguns poros entre as juntas, entre as dobras. Sua cabeça está parcialmente inclinada para a esquerda enquanto ele presunçoso observa as olheiras que demarcam suavemente seu olhar.

Nos pés, de ossos bem destacados, ele sente o chão molhado. A água vem do chuveiro, recém usado.

E em sua cabeça, seus pensamentos remetem ao início do texto.

Ele espera que o peso varie imperceptivelmente.
Que o tempo esmaeça seus sentidos e que a falta de sentidos ilumine-se formando um clarão branco em sua massa cinzenta eletricamente estimulada.
Deseja não ter de recorrer ao frasco por vezes tão frequentes a ponto de conseguir notar a ausência de seu conteúdo.

Assim, quando surpreso perceber o fim, a última das gotas, saberá que sua saúde se manteve estável durante esse tempo que passará, caso tudo ocorra como o planejado.

Sua dor terá sido dividida de forma equilibrada.

Olho no olho, luz forte. A pupila minúscula.
Guarda o frasco na estante.
Seu braço treme.
Imagina causas absurdas.

Só dois motivos primordiais elevam-se.

Ou trememos de frio ou de medo, pensa.
Então, se não estou com frio, do que tenho medo ?

Uma música toca ao fundo, em outro cômodo
A música é calma, algum derivado de jazz.

Penteia os cabelos.
Destranca a porta.


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