segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Tremor

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É bom saber que
Pelo menos
nesse mundo
O que é criado
cria sem criar
por mais que
seja mudo


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sexta-feira, 2 de setembro de 2011

theresa


Seria estranho começar a falar dela pelas roupas ou pelos cabelos; mas por um pequeno segundo, enquanto voltava para a mesa, ela seria de qualquer homem que os elogia-se. O garçom passa, carregando três garrafas e dois copos. Ela olha para o poste na esquina e pensa em quanto tempo falta até fazer sol de novo. Sentados na cadeira, a amiga e um cara, do curso de francês dela discutem sobre descobertas que não são usadas porque não seriam tão lucrativas quanto a tecnologia atual, por mais que fossem melhores e mais práticas. Ela, Theresa, já está de saco cheio desse assunto; a amiga, que faz física na faculdade, sempre puxa essa conversa.

-- Quando ficou intragável a poluição dos carros movidos a combustível feito de petróleo, na hora apareceu o motor movido à dissociação da água e combustão dos gases. Foi só uma coisa deixar de ser lucrativa que apareceu a outra. É obvio que existem milhares de outras invenções por aí que não são inseridas no mercado porque o atual é, por enquanto, mais lucrativo.
-- Aposto que já devem ter descoberto como controlar a gravidade.
-- Não, isso não descobriram.
-- Porque não?
-- Se tivessem descoberto isso não estaríamos vivendo aqui, estaríamos vivendo em colônias no espaço, ou    algo do tipo, sei lá.
-- Isso sim seria divertido.
-- Melhor que esse buraco, com certeza. Espero que encontrem alguma coisa, com o tal do acelerador de partículas novo da China.
-- Aquele enorme?

Theresa bebe o refrigerante no copo e começa a jogar tetris no moderno celular. Eles continuam a discussão. Dez minutos depois ela diz que vai pra casa e eles insistem que fique, ela diz que acha que eles vão se divertir mais sozinhos. Ele diz que não, que é gay; e por mais um pequeno segundo ela se arrepende de ter pensado o que pensou. No fim, depois de um rápido debate sobre qual rumo tomar decidem ir para a casa dele, que divide o apartamento com dois amigos que não são tão estritamente homossexuais. No caminho, Theresa comenta, pergunta se eles acham que a lua deve se parecer com a luz de um poste, perdida no céu. Não, a lua é mais especial que isso, eles respondem. Ela sabe disso, a lua é mais especial, mas enquanto não se pensa nela, ela deve parecer com uma luz qualquer, parecida com as outras. Como uma linda música, tocando baixa, ao fundo, uma leve trilha sonora suave perdida no meio dos outros barulhos. Pensando nisso, ela escuta, por trás da grade de uma livraria fechada, alguém tenta sintonizar a rádio em uma estação sem saber o número certo. Os chiados do Big Bang ecoam, como diria a amiga, ao mudar os canais da televisão.
Começa a chuviscar e ela pensa em como ter um conhecido no lugar onde controlam essas coisas seria útil.