quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

rede

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Acordo de olhos bem abertos, como se por alguma estranha razão estivesse curado de algum tipo de doença incômoda. A poeira paira iluminada de leve pela luz que passa fraca por entre a cortina de pano fino avermelhado. Respiro fundo e escuto o chiado agudo da asma no fundo de meu peito. A poeira na mesinha ao lado de minha cama, a poeira pelo chão, a poeira dentro dos armários, a poeira nos meus sapatos encostados na parede. Poeira, poeira, poeira. É difícil de respirar. Saio do quarto para um espaço mais aberto. É cedo, bem cedo. Todos os adultos dormem na casa. Dormem até tarde. Respiro fundo, chiado. Puxo meu cabelo para baixo, vou no banheiro. Tento ouvir alguém falando ou andando, nada. Só meu pai roncando, uns pássaros animados e as folhas atacadas pelo vento. Meu pai sempre ronca. De novo, uma varanda. Essa tem o chão coberto por azulejos vermelhos escuros e frios que percebo com os pés descalços. Pilastras quadradas de tijolos cobertas com uma massa áspera atravessam o verde do plano de fundo. Entre uma delas e a parede branca da casa, uma rede comprida balançando como as folhas na pequena árvore ao lado. Resolvo subir nela por causa do frio do chão, os braços pra fora para me empurrar de um lado para outro. O conforto, os passarinhos e as folhas me colocam para dormir e acabo tirando um cochilo de novo.

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coloco esse texto aqui por perceber a estranha semelhança entre ele e o colocado anteriormente, sobre o afogamento. o ritmo, Talvez. engraçado, porque este eu escrevi a um mês mais ou menos e o outro foi a quase um ano inteiro. nem me lembrava dele até lê-lo um dia antes de postar aqui. de qualquer maneira essa nota de rodapé é mais um lembrete para mim mesmo. Para que me lembre do que o Vitor falou no caminho pro metrô e de todas as aplicações do comentário.

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sábado, 27 de novembro de 2010

lembrança

A visão embaça, a cabeça abaixa, levanto-me e escorro para a direita.
As coisas se repetem, as coisas se repetem. Já começou? Já começou?
Escuto falarem de novo. Já começou? Não respondo. O mundo já não existe mais.
Já não existe mais. Existe mais. Existe mais do que era o mundo.
A pulsação intensifica dentro das artérias. Doce aceleração.
A neblina me engole, me aperta. Meu pulmão se expande, meus olhos se fecham.
O escuro não dura muito. Luzes profanam o silêncio da minha mente.
Dou mais três passos que desconheço. Me ajoelho, me disseram depois.
Água brota das paredes agora. A água jorra das paredes.
Meu pulmão ainda pulsa expandido. O corpo sacode no meios das ondas.
Repentinamente a água rouba o lugar da neblina. Estou no Oceano,
Infinito em todas as direções. É tudo real, estou molhado e tudo mais.
Canso de nadar, muito tempo se passou. Levanto, de pé mergulho.
O cansaço não me permite respirar. Não consigo respirar.
Engulo água no desespero do afogamento. Mas não me molho por dentro.
Sinto sede, eu não me molho por dentro. Sinto sede. As coisas se repetem.
Sinto mais sede. Sinto a morte e a morte chega. De novo estou cercado, tudo escuro de novo.
Acho que está escuro, acho que eu morri. Me aperto contra o chão como um animal
alucinado, faminto. Sede. Abro meus olhos e a água se foi. 
Voltei, digo para as pessoas em volta, Meus amigos. 
Um deles sentado no chão com sua coroa dourada olha pra mim.
Conversamos por horas. Horas. Ele é pequeno e então ele é grande. Ele se transforma.
Se transforma em uma churrasqueira. Abro meus olhos. Mesma cena, tudo azul.
Choro em baixo d'água pelo pequeno rei meu amigo. O lamento não é ouvido.
Nado para outro ambiente, o que é que eu tenho em mente? Nada, estou vazio.
Vazio, vazio, vazio. E isso me faz sentir ser como uma água viva. Molenga.
Eu sou uma água viva. Respiro aqui agora. Sou parte no oceano.
Aqui no fundo o fundo é raso. O sol ainda ilumina algas compridas
e anêmonas vermelhas me recitam poesias azuis. Meus amigos são todos peixes.
Choro por eles. Não sou ouvido. Me deito no fundo. Pessoa de novo.
Voltei, digo outra vez. Olho para eles e eles me olham.
A água escorre para o teto. De cima me ameaça. Palavras surgem.
As coisas se repetem. Profetizo deitado no macio. Sobre meios de transporte talvez.
Afirmo fatos surreais e tudo parece desenhado por Liechtenstein.
A garota me olha, me encara, sem alma. As coisas se repetem.
Quanto tempo se passou de verdade? Sinto a sede de novo.
Sento, deito, olho para o teto e escorro, liquidifico.
Sacudo minha cabeça. Rio do universo de todos eles.
Rio, e só observo. E só.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Vai você. Vai?

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Ontem ele chorou, vendo um filme no computador do quarto. Encontrei ele na rua indo para a locadora e me inclinei para tentar reconhecer o nome ou alguma imagem dentro da sacola de plástico esbranquiçado. Mas não vi nada, só um agrupado de letras e cores embaçadas. Uma Letra B grande no centro da capa do DVD. Passou, apressado, atravessou a rua sem olhar pros lados e virou a esquina, em direção a locadora, eu acho. Pareceu ser o mais provável. Eu sei que não devia. Eu sei que não devia olhar para a casa dos outros pela janela. É feio, é errado. Dizem que é, mas todo mundo olharia, se encontrasse algo interessante onde assentar os olhos. Aposto que se eu começasse a trocar de roupa sem fechar as cortinas com ele lá no quarto dele, lendo um livro ou vendo um filme, como ele sempre faz de noite... Eu aposto que ele ia ficar me olhando, que ele ia acabar se escondendo pra ficar me olhando todas as vezes que chegasse do banho embrulhada na toalha. Toda a vez que fosse até a janela fumar um cigarro no meio da noite, escondida de meus pais. Eu ia fingir que não sabia. Ia fingir que ele não estava lá, que ele não estaria lá. Engraçado isso. Quando falamos de um futuro pensando em como seria viver ele, bom, pelo menos eu, acabo misturando palavras no passado com as palavras no futuro, parece errada a concordância. Você se importa? 

Não, não soa tão mal assim. continua, vai... 

Não me olha assim, aposto que você faria o mesmo se tivesse um vizinho de prédio da frente que nem o meu, sua dissimulada. 

Há, é, com certeza que eu faria isso sim, com certeza.

Atá, então não falo mais também, fica me olhando como se eu fosse uma maluca, uma safada. 

Fico nada. Vai se foder vai. 

Eu não, vai você.


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quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Laço

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Você ri das besteiras que eu falo
diz que não sou maluco
que isso tudo é só fingimento
é besteira minha.
Penso que essa loucura
é como uma máscara
que visto quando estou assustado
e que sem saber, estou sempre assustado
Penso que eu te amo
E sei que você sabe disso
sei que você me conhece melhor
melhor do que eu mesmo
mesmo que não me conheça
tanto quanto pensa
e aí eu mordo seu braço.

.(26 de novembro de 2010)

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

empinância

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vê se não se esquece
e dessa vez agradece
porque tudo que sobe desce
e essa sua superioridade toda
que você nunca fica farta de fingir
um dia vai cair

E é melhor que seja agora
do que na pior hora
porque seja por mal
(ou por bem)
um dia vai cair.

E é melhor que seja assim
degrau por degrau
do que de uma vez só
caindo de cara.

E eu quero um obrigada
de olho no olho
sem nariz empinado
nem nada desse tipo

porque pra mim
bom, pra mim...
já chega disso.
não faço.
nunca mais.
E fim.

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terça-feira, 26 de outubro de 2010

Ligação

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Você pega o telefone celular e me liga assim
me conta que está deitada sobre facas e navalhas
deitada sobre estiletes laminas e uma espada

diz que vai se cortar inteira
e que não acredita em mais nada que é sagrado
eu aqui do outro lado da linha assustado
porque nem sei quem é você, que me liga assim

penso em dizer
é engano
é engano

mas tu me contas que é a ultima ligação
e que a bateria já está quase acabando
diz isso tremendo e chorando

penso em dizer
eu te amo
eu te amo

qualquer coisa que possa ajudar

mas me conta que nunca mais quer saber de amor
que seu coração já está quebrado
que já passou da validade
que não tem conserto.
que está tudo acabado
diz isso firme, só soluçando

penso em dizer
que não sei o que dizer
e eu não sei o que dizer.

Porque eu sou um covarde

E eu só digo
que a vida pode ser triste
mas sempre será bonita
e que mesmo a morte é bonita
e que mesmo a pior doença é bonita.
O fim, o começo.
A dor e a alegria.
É só como se vê as coisas
o que importa.
Mas que é mais fácil ver
como a vida é bonita
estando vivo.
Porque os mortos não veem
mais nada.

Mas você só repete o que já disse antes
como se tudo já estivesse decorado
como se nada pudesse ser modificado

E digo tudo.
Digo que te amo
e pergunto teu nome
digo que é engano
peço que não desligue o telefone.

Porque tudo é verdade
porque é na tristeza
que as pessoas se ligam de verdade
você ri
de minha ironia inocente
juro que foi sem querer.

repetimos as palavras
várias vezes
(você já não tão convicta)
até que as palavras
se tornam só palavras
até que sua voz
parece ok

e você diz obrigada
obrigada estranho
eu te amo

e eu digo
de nada estranha
e desligamos
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domingo, 24 de outubro de 2010

regularidade em alta

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Para que seja um sonoro soneto
faz-se necessário que tudo rime.
O significado, sim, é todo obsoleto
tanto faz se é lixo ou é sublime.

Somente o soar das tenras palavras
merece alguma humilde atenção.
Posso falar sobre aquelas safadas
ou sobre sentir todo aquele tesão.

Qualquer coisa serve contanto que rime.
Também sei fazer poesia como antigamente
e pouco me importa se alguém isso fascine.

Minha métrica irregular reflete minha realidade.
- A confusão encenada de minha mente -
Mesmo que o falso não seja lá a pura verdade.


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domingo, 17 de outubro de 2010

barco

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A vida canta uma música
embaçada e fora de ritmo

vou vestir minha máscara de lobo
e uivar o dia
uivar durante todo o dia

Ser o que não sou para
que seja eu de verdade

Vou vestir minha camisa de força
invisível e mal feita
para conter minha profana loucura

Uivo para a lua quente de um céu sem estrelas
Uivo para o sol frio encoberto de cinza

Vou vestir minha mascara de pessoa
e chorar de noite

Ser o que não sou para
que seja eu de verdade

Essa camisa que só me
aperta por dentro
e não me deixa dormir

quem sou eu ?
me diz.
me diz.

o que eu fiz ?

Do falso azul de mim mesmo
por baixo navego sem vento.

aqui é onde o barulho é mais alto
aqui é onde as coisas selvagens estão



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domingo, 10 de outubro de 2010

Toda a nossa incompletência

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Parte I


Minúsculos detalhes metálicos em seu pulso chocam-se agitados enquando ela mistura o açúcar no quente café com leite usando uma pequena haste plástica descartável. O úmido vapor flui lento de dentro da xícara e aquele cheiro sempre agradável é logo previsto pelo cérebro já ansioso por cafeína.
Logo em frente sua amiga recém-chegada ao recinto puxa ruidosamente a rústica cadeira marrom com o encosto de palha trançada, Bom dia, ela diz.
Seus olhos são alongados e quase não se vê direito a cor.
Os cabelos incrivelmente lisos avançam até logo perto da metade de suas costas e a franja é cortada reta, logo acima de suas sobrancelhas finas recém-feitas.
Bom dia. E aí, como foi lá? Encontrou algum quadro bom?
Uma máquina fotográfica dependurada no encosto da cadeira balança com a movimentação constante dos garçons. Não, nada.
Quer dizer, sim, mas nenhum que combine. Nenhum como eu queria encontrar.
Oi, oi, me traz um chocolate quente?
A mulher do café com leite também é morena.
Obrigada, diz.
Cabelos curtos escondem suavemente a gola alta da camisa social que pegou
na casa de seu namorado.
Ela Leva a haste até a boca, para analisar a temperatura do líquido doce.
Seus lábios se comprimem e marcam o plástico com um pouco de batom vermelho.
As duas dão as mãos por cima da mesa, Quanto tempo, não é ? É?
A gente não se viu semana passada? Viu?
É, você não lembra? Acho que não, desculpa.
Tudo bem, eu também nem lembro direito, quando eu cheguei naquela festa você já tava lá a um tempão, distraída, distraída.
Ah, sim, é, eu me distraí mesmo naquela festa. Soltam as mãos.
A fotógrafa leva a xícara até a boca.
O cheiro intenso adentra suas narinas e alegra sua existência.
É um de seus cheiros favoritos.

Você parece meio melancólica, não sei, aconteceu alguma coisa?
Não, nada, só pensando. No que?
Numas esculturas de uma exposição pequeninha que eu fui ontem. Bonitas?
Não muito. Só, diferentes, incomuns.
Vou fazer uma matéria sobre elas, realmente me afetaram.
Acho que são de uma arte das mais puras e sinceras que eu já vi.
Simples, mas, profundas ao mesmo tempo.
Como aquele quadro da Tarsila, da mulher com um pé enorme?
Não, como, como... não sei, qual o nome daquele compositor que ficou surdo?
Não sei.
Antigo, ah, sim Beethoven, isso.

A pele de seu braço é branca e leve, algumas varias pequenas pintas pretas marcam insignificantes a estendida brancura. Sorri com seus finos olhos.
O garçom coloca o chocolate quente em sua frente.
O vapor úmido flui lento de dentro da xícara branca sobre um pires também branco.
Uma haste de plástico idêntica a outra apoiada sobre a porcelana.
Enfim, acho que é, de certa forma, semelhante as últimas músicas do Beethoven.
Eram esculturas feitas nas aulas de arte de uma escola para cegos.
Rostos e formas do jeito que as mãos os mostraram aos “escultores”.
Bonito. Simples, diz.
Tirou foto delas?
Não, esqueci minha máquina lá na casa da minha avó no dia que fui tirar as fotos dos gatos dela. Dá mó preguiça só de pensar em ir até lá na barra de novo.
E o meu carro tá na oficina.
O que aconteceu? Ah, o cara do estacionamento VIP esbarrou com ele em algum lugar.
Ai... odeio esses manobristas.
Bebe mais um gole do café com leite, já na temperatura ideal. O suficiente para aquecer sua garganta sem maltratar a língua.
A descendente asiática observa o garoto sentado com a mãe na mesa do lado, brincando com seu carrinho vermelho de design italiano, bebendo refrigerante americano fabricado na América latina.


Mas foi coisa pequena, amanha eu vou pegar ele e... e ir até a barra.
Que merda. É.
Mas, fala mais das esculturas.
Sacode a cabeça, escapando de sua hipnose memorial desencadeada pelo colar da mãe do menino. Oi? Ah, sim, falo sim.
Tinha uma, pintada com tinta preta que era, quer dizer, parecia ser um garoto novinho fazendo bico, mas com a boca aberta. Com os lábios jogados pra frente, finos.
Como se estivesse reclamando de alguma coisa.
Mas, sem nenhuma expressão no rosto que, que encaixasse, sabe?
Todos os rostos eram sem expressão. Ou pareciam falsos, não sei. Falsos sentimentos.
Uma pessoa que nasceu cega, ela sabe que quando sorri os muculos de sua bochecha puxam os lados da boca pra cima, que linhas de expressão ligam o nariz à boca.
Que apertamos nossos olhos e que de vez em quando, levantamos as sobrancelhas quando sorrimos.
Quer dizer, quem é cego pode saber disso.
Quem é cego pode apalpar o rosto de alguém enquanto esse sorri.
Mas, mas. Não sei. É tão estranho isso.
Passei uns bons dez minutos olhando esse negrinho fazendo bico.
E ela leva a xícara de chocolate até a boca.
O cheiro intenso adentra suas narinas.
Doce, denso. Um de seus cheiros favoritos.

A fotógrafa já parece meio melancólica também, pensativa.
Começa. Sabe aquele escritor que eu gosto?
O Lourenço. Sei, você me fez ler os livros dele.
Fiz. Mas você gostou. É, gostei.
Tá, o que eu ia falar é que outro dia eu li uma HQ dele, “A caixa da Areia”, em que em uma parte ele dizia que uma foto pode ser mais realística, mas que um desenho capta mais realidade.
Isso, logo depois de citar outro filósofo que classificou realidade como sendo o modo de ser das coisas fora da mente humana ou independentemente da mente humana.
Sei, inteligente, interessante.
Eu acho que a realidade não é fixa, eu acho que a mente humana é que faz tudo parecer mais certo. Não que tudo pareça certo pra mim, ou pra você. É tudo uma confusão maluca.
Mas, eu acho que as coisas são mais estranhas do que realmente as interpretamos.
Mais incertas. Incompletas eu acho.
A mente humana tem a tendência de completar as coisas baseada nas nossas próprias experiências passadas.
Tipo, se vemos três quartos de um circulo, vamos saber que é um circulo, vai ser um círculo, porque a experiência de vida nos leva a associar os três quartos com a coisa toda.
Tipo, se vemos um pivete na rua, ficamos com medo, porque o passado nos diz que pode ser perigoso, que ele pode tentar nos assaltar.
Mas esses impulsos do cérebro, eles vem da visão, acho que esculpir sem ver, pintar sem ver, escrever sem ver, que nem aquele poeta lá fazia, esqueci o nome dele, é muito mais verdadeiro, mais sincero do que vendo.

Do que você tá rindo? Ah, desculpa, é que eu me lembrei de “Sexto Sentido” agora. Do garotinho escrevendo que queria matar todo mundo quando escrevia de olhos fechados. Escrevendo os seus próprios pensamentos subconscientes direto na folha. É, eu lembro disso. Muito tenso esse filme.


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quinta-feira, 7 de outubro de 2010

desapego

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No sono me perco
As pálpebras pesam
A letra entorta
o pensamento esgota
dessa vez
termino a poesia
no primeiro verso
mas retorno
quando acordar.

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Estou sem forças
Acordei cansado
Estou sem forças
até pra pensar
seja lá qualquer coisa
Digo Corta,
Concordo acabado
sem nem entender
o significado
Hoje
estou sem forças
até pra levar
adiante
de minhas palavras
a confusão constante


P.S : escrevi em dias diferentes. mas resolvi coloca-las juntas por causa da semelhança dos temas
acredito que possa depois uni-las. Falta só o pedaço do meio. O pedaço em que estou dormindo. Não sei.

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segunda-feira, 4 de outubro de 2010

impressões da tarde de um sábado

A impressão da incapacidade
é altamente tóxica
e cada vez que inspiro agoniado sobre
sua massa disforme me sinto
fraco e imaginário
em meus estranhos pensamentos
já a tanto tempo radioativos e envenenados

por todo esse esforço desmedido
de fazer o que espero
conseguir ser bom em.

por toda essa tensão no meu pescoço
culpa de tantas razões que desconheço

por causa de meus olhos
abertos na madrugada
olhando para o nada escuro

por causa do branco
da folha de papel

por causa dos lábios
vermelhos
e olhares
quase discretos
vindos de todas as direções

meus estranhos pensamentos
estão radioativos e envenenados.
mutantes e talvez, talvez extraordinários.


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domingo, 19 de setembro de 2010

Escada de emergência


Introdução

Escada de emergência. Cinza, dura, áspera, coberta por uma camada suave de poeira.
Uma garota desce com fones de ouvido. Close nos sapatos, surrados e na barra da calça, rasgada. Para, olha para cima. Eco, um latido de cachorro em algum andar. Porta batendo. Aceleração. Árvores, balançando com o vento. Algumas nuvens vagam brancas perdidas pelo céu azul. Despertador, mão, escova de dentes. Close nas olheiras. Cachorro latindo. Noticiário das seis e meia da manhã. Ontem houve um acidente, três pessoas morreram na hora. Água fervendo, café. A garota ajeita o cabelo no espelho da portaria. Uma empregada limpa o lado de fora de uma janela, risco necessário. Papagaios na antena. Avião voando ao contrário. Sol nascendo, nascendo. Clarão. Grito, grito. Escova de dentes. Cospe a espuma. Risada.

Cena I

Um homem sentado numa cadeira em um bar de esquina. Perfil, barba por fazer. 
O jornal dobrado ao lado de seu braço esquerdo.

1

Ei, Ei, bom dia. Me traz um suco de laranja ?
Ah, e um maço daqueles vermelhos ali.

2

Ok Ok, mais alguma coisa seu Carlos ?

Carlos

Não, por enquanto não. Obrigado.

Acomoda-se confortavelmente no encosto. Escorrega a cintura para frente.
Tira os óculos escuros e os apoia na mesa. Pega o jornal. Primeira página, mais uma notícia irrelevante. Época de eleições, qualquer besteira vai pra primeira página. Troca de dinheiro vivo na ante-sala do presidente. Nada importante. Corrupção ? Quem liga ? Passa um carro com um alto falante anunciando alguma coisa ridícula, algum candidato. Árvores balançando com o vento. Algumas nuvens vagam brancas pelo céu azul. Obituário, no fim do primeiro caderno.
Mario Pereira Gomes. A família convida para a missa de 7o dia.
Carlos inclina a cabeça para o lado, para baixo. Coitado do velho Mario.

2

Aqui o suco.

Carlos

E o cigarro, trouxe ?

Carlos coça o olho. Olha para o lado de fora. Passa uma garota usando um vestido branco, curto.
Sacolas de supermercado machucando seus dedos frágeis. Do outro lado da rua, um velho de olhos azuis espera o sinal abrir. Nenhum carro passa. Mas ele espera mesmo assim. Respira fundo. Barulho do copo batendo na mesa. Agudo, “clang”. O garçom volta ao balcão e pega o maço de cigarros. Entrega. Carlos dobra o jornal e o coloca de volta na mesa, ao lado dos óculos.
Sacode a cabeça, agradecendo. Coitado do Mario. Árvores, nuvens. O velho atravessa.
Entra no bar. E senta na mesa ao lado. Respira fundo. Sorri para a câmera. Carlos sacode o copo de suco de laranja, já quase vazio. Barulho do gelo batendo no vidro, “clang, clang, clang”. Tela escura. Interferência. Notícias misturadas, várias vozes. Interferência.
Crimes. Corrupção. Barulho de batida de carro.

Tavares ( o velho)

Oi, perdão, você poderia me informar que horas são ?

Carlos

Horas ?

Tavares

É, As horas, sabe que horas são ?

Carlos levanta o braço para olhar o relógio. Uma de suas sobrancelhas inclina-se alguns graus, em sinal de dúvida. Com o outro braço ele dá alguns petelecos no vidro redondo.

Carlos

Estranho, meu relógio parou.

O velho morde a parte interna de sua bochecha e aperta os lábios, levemente angustiado.
Estica o braço para chamar o Garçom. Close no aviso de proibido fumar. Do lado de fora
passa um homem alto passeando com seu cachorro poodle. Cadela ? Cachorra ?
Proibido fumar.

Tavares

Ah, sim, obrigado de qualquer jeito.

Último gole. Estala o pescoço, sorri para o velho.

Carlos

Hei, hei, garçom, traz a conta, por favor ?
Qual seu nome senhor ?

Tavares

Meu nome é Igor. Mas todo mundo me chama de Tavares. É mais fácil lembrar.
Você vem muito aqui nesse bar ? Não lembro de ter visto você antes por aqui.

Carlos

há, há, engraçado, eu ia perguntar a mesma coisa.
Você não tem cara de freguês novo mesmo não.

Tavares

Ah, obrigado eu acho.

Em Câmera acelerada, o garçom traz a conta. Carlos se despede de tavares. Levanta.
Do lado de fora, sua primeira ação é pegar o isqueiro e colocar um cigarro na boca.
A velocidade da câmera volta ao normal quando surge o fogo. Close no fogo, azul, laranja, vermelho e amarelo. Barulho de algo fritando. O cigarro acende, fluem as primeiras fumaças.
Olha para o lado, o cara alto está pegando os detritos do cachorro. Tuc, tac, muda o anúncio no pequeno outdoor rotativo na outra esquina. É proibido fumar.

Carlos

Coitado do Mario.

Pensa, em voz alta. Piscar de olhos. Um garoto assusta um grupo inocente de pombos.
O poodle late ao ver os pássaros voando. Tavares ri de alguma besteira que o garçom fala.






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sábado, 11 de setembro de 2010

é só isso mesmo.

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As brancas paredes soam ásperas
enquanto observo-as sem esperança
encarando amargurado este vazio
revira em meu estômago aquela ânsia.

aquela que pulsa e faz tremer meus pulsos
cada vez que tento invocar do fundo
algum impulso que me faça avançar
em palavras e significados
muitas vezes desconectados.
o sentido não é o importante.
nada faz sentido afinal de contas...

E nada mais será como as folhas caindo das árvores
no outono de mais um ano que se passa
despercebido
incompreendido
ou mais algum adjetivo.

acabo destruído, depois de tanto tempo a pensar em tentativas de poesia.
não, não nasci para isso.
Mas é como um vício.
não nascemos para os vícios.
Eles se impõem, mais fortes do que todo o resto
mesmo que por alguns poucos instantes
e só.

Já me sinto melhor.

Ignoro a métrica clássica, culta.
Como soam os sons das palavras é o que mais importa.
mesmo que não fique bom
mesmo que à ninguém agrade
mesmo que o que escrevo agora não seja
tão bom quanto o que já escrevi
em outro momento de minha vida

A minha opinião pode mudar, se transformar.
posso ser outra pessoa, ou coisa.
mas o vicio continua.
imposto pelo entorno
o entorno que um dia irá me devorar
embora possa eu não ser mais
eu mesmo quando isso acontecer.

quem liga ?
bom, ruim...
olha, pra mim tanto faz.



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domingo, 5 de setembro de 2010

Molly's Chambers ?

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Hoje me apaixonei pela garota que usa um lápis preto de tabuada.
A garota que gosta de "Kings of Leon". Conheci ela no avião, ou no cinema.
Provavelmente os dois. Fugimos para a Guatemala.
Bebemos tequila e fumamos charutos cubanos. Assistimos ao grande show
sem pagar nada, olhando, pelo elevador panorâmico.
Nos beijamos sob o soar do alarme.
Mas não sem antes sacanear um vendedor inocente e dançar "twist" com a música
dos auto-falantes da loja de infinitas variações.

Por alguma razão, sua aparência parecia inconstante.
como que, com o tempo ou por alguma fuga nossa, irrelevante, ela tivesse que mudar.
Poderíamos estar fugindo de alguma coisa, ou alguém ?
Lembro de seus cabelos longos, deles compridos ou ruivos ou negros.
Lembro de suas roupas, infindáveis cores.

"Kings of Leon" ?  Talvez fosse outra banda. Ouvimos tantas coisas...
Desde "Doris Day" até "Elvis", passando por "Lester Young",
"Miles Davis", "Frank Sinatra", "Duke Ellington",
"Beatles", "Franz Ferdinand"...
"Devendra"...
o resto eu não sei, ou... ah, deixa pra lá.
Enfim...

Acho que vivemos muito tempo. Fugimos muito tempo.
Eu não sabia de onde a conhecia  (a garota do lápis).
Era como se já tivéssemos nos encontrado antes,
ou em outra vida.
Sem que soubéssemos.
Lembro de falar-lhe sobre outra garota...

"Eu estava aqui, indo em direção à escada rolante, distraído, olhando para meus pés,
talvez triste, não lembro, quando, ao levantar meus olhos...
encontrei a garota que pareceu, por muitos meses, ou anos... a mais linda.
Nossos olhos se amaram opacos, nublados e distantes poucos
segundos, ou milésimos.... como se trocássemos cartas.
Cartas com seu perfume. Telegramas ? O código morse de nossa pálpebras.
Virei, tímido, o meu rosto e pisei no chão que descia, da escada.
No meio do caminho olhei para trás mais uma vez.
Para nada. Ou tudo.
Virei só pra encontrar um espaço vazio onde ela estava antes." disse.
"Talvez ela fosse você" continuei.

E a garota do lápis só ria.
Nesse dia, como estávamos bobos.
Foi logo antes de entrar na loja... e dançar.

Você, leitor, ouvinte, pessoa. Você acredita em sonhos conjuntos?
Por alguma razão eu, acordei com a certeza de que essa garota do lápis
deve existir de verdade.
E um dia, espero,
nos lembraremos de nosso sonho, nossos sonhos...
E nos encontraremos.

Com os olhos opacos, nublados...


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segunda-feira, 30 de agosto de 2010

brotamento

psicografo palavras de meu prórpio subconsciente em pura profusão de letras e sentimentos .  tudo, tudo, tudo que eu não penso e interpretado pela a ausência de mim mesmo. não penso. logo, não existo. quer dizer. o que eu penso não se aplica. não aqui. eu simplesmente teclo as teclas ou mexo a caneta. psicografo minhas próprias palavras que brotam ou jorram de minha boca ou nem isso. palavras que escutei a um bom tempo
ou nenhum. algo que gritam na sala de estar. é tudo estado de esp´rito nem sei se acerto a ortografia.
o que é ortografia ?
 ortografia é mais um impedimento para nossas... qual a apalavra ? não sei. expressionismo. lembram de dadaísmo? vi simpsons hoje de manhã. fim.

domingo, 15 de agosto de 2010

até no banheiro ?

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Vovó... o que é um anjinho da guarda ?
porque, sempre que eu me machuco falam que eu tenho um anjinho da guarda muito bom.
anjinho da guarda. bom, anjinho da guarda é um anjinho que fica sempre
bem pertinho de você,
pra te proteger, pra tomar conta, pra cuidar de você...
o tempo todo vovó ?
É, meu filho, o tempo todo.
Até no banheiro ?
Claro.
não sei se eu quero ele comigo no banheiro.
a, menino, que isso ?
a uns meses atrás você fazia coco de porta aberta
e pedia ajuda pra tomar banho.
é, vó, mas eu tenho sete anos agora.
sou bem grandinho, pré adolescente.
besteira, garoto. você ainda é bem pequeno.
mas vó, esse meu anjinho nem é tão bom assim...
oi ?
É, vó, eu me machuco o tempo inteiro.
pelo menos você nunca quebrou nada.
é, vó, mas olha esse machucado aqui no meu joelho...
tem até uma gosminha.
Olha, vó...

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terça-feira, 3 de agosto de 2010

lá no centro

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Dois homens de terno em um cafézinho do centro da cidade.
Cavé, pra quem conhece o lugar.


E então, como foi a reunião das oito da manhã, cara ?
Ah, o de sempre, aquele gordo escroto ficou falando de plano de metas e plano de metas e plano de metas.
Que bom que eu não fui então, não ia aguentar ouvir isso de novo.
Ah, mas ele vai falar de novo na reunião das dezasseis horas.
Nessa, graças a Deus, eu não vou também. me chamaram lá em cima. pra discutir um projeto meu de um bom tempo atras.

poxa, rapaz, que sorte a sua.
não sei, tenho medo de estragar alguma coisa. ando muito estressado, sabe ?
ah, sei, tem aquele rolo lá com seu filho que tá indo mal na escola né ?
nah, não é isso não. ir mal na escola é normal, eu acho. bom, eu ia. e cheguei onde cheguei, né ?
mas podia ser melhor.
sempre pode se melhor.
sempre. mas, então, porque o stress ?
ah, a princípio, essa coisa toda de rotina.
mas, pensando muito  a respeito cheguei a conclusão que,
na verdade,
o problema todo é culpa do eclair de creme.

eclair de creme ?
é, isso mesmo. mas, enfim, tenho que ir agora. até mais.
foi bom encontrar com você.
a gente trabalha no mesmo andar. a gente se encontra todo dia.
só figura de linguagem.
então não foi ?
foi, porra, sempre é. Só que já falo isso isso mesmo sem querer.
boa educação, sei lá. algo do tipo.
(levanta)

ei, porra, não vai pagar a conta não ?
eu paguei na ultima vez, porra. sua vez.
ah, tá. que merda. (resmunga)
Ei ! moça, me dá dois eclairs de creme pra viagem ?
eles não são um problema ?
é complicado.
depois explico.
traz a conta junto, viu,  moça ?
...

quinta-feira, 15 de julho de 2010

sanguessugas

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QUE SILÊNCIO
Puxa, é mesmo
mas agora estamos falando
acabando com o silêncio
não tem mais aquele zumbido
nos filmes é comum colocarem um
barulho grave em cenas sem som
tentando fazer o efeito que o silêncio faz
o silêncio não é a ausência de som.
O silêncio é um barulho.
Confortante. Solitário.
Carente. Ele demanda nossa atenção.
Como uma criança recém-nascida.
recém nascidos não demandam nada.
só gritam.
fazem barulho.
A noite é silenciosa.
Mais do que o dia.
A noite é uma criança.
Mentira, cara, a noite é barulhenta.
Mas diferente.
Sempre tem barulho e silêncio.
Não. Pode ter silêncio sem barulho.
Mas não tem barulho sem silêncio.
Puxa, e você devia pensar antes de falar, que tal ?
Você já bebeu quantas cervejas ?
Ein ?
A, umas quatro.
Quatro... e você já tá falando
essas merdas todas ?
que merdas ?
Ok, não tem barulho sem silêncio nem silêncio sem barulho.
Se não tivesse barulho como saberíamos o que é o silêncio ?
Já pensou o que um surdo acharia de nossa conversa ?
Ish...ufa, ainda bem que ele não ia poder ouvir. HAHAHA !
EI NÃO É ENGRAçADO NÃO.
Minha avó conhece um cara que ficou surdo.
Como ?
Conhecendo, oras.
Não ! há... você bebeu também. Como ele ficou surdo ?
Escovando os dentes...
Eita. Mas como ?
Não importa. Só importa que depois ele aprendeu leitura labial
e daí ?
Vai que tem algum surdo lendo a gente ?
Nossos lábios,
nossas palavras ?
como ? só tem a gente aqui...

Será que realmente faz silêncio na mente do surdo ?
Sem barulho não tem silêncio.
Nós só somos surdos mesmo quando morremos.
você sempre fala essas coisas... meio mórbidas.
Sempre tem o barulho dos nossos pensamentos.
Por mais que tentemos não pensar.
O pensamento sempre volta.
E volta.
Se continuar assim a gente vai acabar entrando em outras
discussões bacacas.
é... melhor parar mesmo.
essa barulheira toda me deixou cansado.
desliga a televisão.
e o aparelho de som.
os leitores podem ficar... não dá pra ouvir
os barulhos deles.
ei você... para de comer tanto doce... você engordou um pouco.
com quem você tá falando ?
a... nada não.
apaga as luzes, amor ?
ok.




e quando a gente sonha ?
que barulho faz ?
acho que não é nem silêncio nem barulho.
acho que é nada.
a gente só descobre depois.
ei, você tá aí ?
amor ? tá acordado ?
puxa... 

que silêncio.




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domingo, 4 de julho de 2010

com todos eles

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Preciso agora só reorganizar essas palavras.
Não, recolocar.
Reescrever, com uma letra mais bonita.
 Talvez seja como remodelar uma pequena escultura de massinha
(aquela de criança).
Puxa, isso realmente faz ressurgir em minha mente algumas memórias resplandescentes
de meu passado recorrente.
Essas palavras estão confusas.
Preciso criar algum sentido mais concreto.
Algo mais profundo.

Talvez deva retornar ao início e reler, para que alguma ideia nova surga em meu pensamento.
Mas, é provável que isso não me ajude em nada.
É melhor escrever olhando pro teclado mesmo, sem me distrair.
 Minha inspiração instantânea vem do teclado.
O consciente é o teclado.
Invoco de meu subconsciente todas as informações necessárias para completar um texto.
Completar os textos.

Minhas costas doem, minha cadeira está meio quebrada.

Você tecla com todos os dedos ?

Estranhamente, mesmo escrevendo muito, ainda uso só os indicadores.

Eles já são diferentes dos outros dedos.
São endurecidos, estranhos.
Meus canais de passagem.

Através de meus indicadores libero as imagens de minha mente em forma lírica.
Não tão lírica assim.
E já estou me contradizendo de novo.

Mas, enfim. Meu irmão deve ter um pouco de massinha no quarto dele.
Acho que vou fazer um elefante.
Ou uma cabeça.

Talvez ela pense.

Mas não vou fazer indicadores para ela.
Menos um para que eu me sinta inferior.
Preciso é aprender a escrever com todos os dedos.

.

destranca

O vidro do remédio está cheio. O rótulo esconde o conteúdo informando o que o compõe. Confiamos.

O frasco tem um peso agora.
Evidentemente terá outro quando vazio.

Um homem aperta o vidro firmemente por entre os dedos.
O cenário é o banheiro de seu apartamento.
As paredes são cobertas por azulejos de cores básicas, azuladas.
Toalhas de alta absorção estão penduradas em pequenos ganchos brancos de ponta arredondada.

Os dedos do homem são finos e fios claros de cabelo, ou pelo, escapam por alguns poros entre as juntas, entre as dobras. Sua cabeça está parcialmente inclinada para a esquerda enquanto ele presunçoso observa as olheiras que demarcam suavemente seu olhar.

Nos pés, de ossos bem destacados, ele sente o chão molhado. A água vem do chuveiro, recém usado.

E em sua cabeça, seus pensamentos remetem ao início do texto.

Ele espera que o peso varie imperceptivelmente.
Que o tempo esmaeça seus sentidos e que a falta de sentidos ilumine-se formando um clarão branco em sua massa cinzenta eletricamente estimulada.
Deseja não ter de recorrer ao frasco por vezes tão frequentes a ponto de conseguir notar a ausência de seu conteúdo.

Assim, quando surpreso perceber o fim, a última das gotas, saberá que sua saúde se manteve estável durante esse tempo que passará, caso tudo ocorra como o planejado.

Sua dor terá sido dividida de forma equilibrada.

Olho no olho, luz forte. A pupila minúscula.
Guarda o frasco na estante.
Seu braço treme.
Imagina causas absurdas.

Só dois motivos primordiais elevam-se.

Ou trememos de frio ou de medo, pensa.
Então, se não estou com frio, do que tenho medo ?

Uma música toca ao fundo, em outro cômodo
A música é calma, algum derivado de jazz.

Penteia os cabelos.
Destranca a porta.


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quinta-feira, 17 de junho de 2010

Gravidus = Pesado

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Duras como concreto
São as palavras indiscretas
que chegam aos ouvidos.
demoram a unir-se em algum sentido.

A visão já ofuscada
pelo tempo, sem brilho.
humedece, incrustada
por jóias translúcidas.

Quão horrível é
que o fim chegue antes
para a obra
do que ao autor

as imagens, lembranças,
escurecem seus pensamentos
a alegria dos momentos
convertida em agonia

coitada da criança,
fadada ao esquecimento
por sorte foi curto o sofrimento
o sentimento surge
talvez mais forte
para a protagonista

do que jamais pode vir
a surgir para o enfermo.
existia o pensamento ?

a morte de algo
tão breve.
não palpável.

nada nunca mais será
igual.

nada nunca é tão igual.

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sábado, 12 de junho de 2010

roberto e os peixes

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São seis e nove da tarde, ou noite, não importa. Roberto funga sobre seus grossos dedos. O cheiro é de peixe. Um cheiro que ele despreza. Esse marítimo odor é um sinal de que algo está errado. Algo tem que estar errado. Ele lembra da ultima vez em que sentiu esse cheiro em suas mãos. Foi assaltado logo depois... perdeu o carro e as compras do supermercado, que passou horas escolhendo.

Pelo menos agora ele está em casa. O pior que pode acontecer é escorregar no tapete, ou em uma almofada. Quebrar uma costela... ou sofrer um traumatismo craniano. É isso ?

Roberto resolve ficar sentado, em frente a seu computador.
Não, o computador pode quebrar.
Roberto vai até a cama e deita.

Se escondendo em baixo de seu travesseiro de penas de ganso, ou cisne... talvez pato ou papagaio. Mas esses não são pensamentos que passam por sua cabeça. Ganso. Pronto.
Síndrome do pânico ?
Roberto, em sua imaginária segurança, imagina do que pode estar se protegendo.
E se algo na casa entrasse em curto circuito e o apartamento pegasse fogo ?
E se … seus cabelos começassem a cair ?
Não, não.
Melhor não pensar nisso.

O cheiro de peixe cada vez mais forte.
Marcando cada instante.
Instantes tão intensos que um relógio comum não poderia marcar com suas batidas ritmadas.
Cada fungada um novo pensamento.
Roberto esfrega suas mãos malcheirosas nas calças.
E nos lençóis.

O cheiro se espalha cada vez mais.
Como se a cada minuto as possibilidades de algo horrível acontecer aumentassem descontroladamente.
Roberto passa um bom tempo deitado, se contorcendo, estressado.
A maciez do colchão o acalma aos poucos.
Seu nariz ,entupido pelos ácaros invisíveis das penas do papagaio, despreocupa-se com o odor odioso.
Logo, Roberto cai em um sono agitado.
Com sonhos... não... pesadelos horríveis.


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terça-feira, 1 de junho de 2010

morte

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Na saída do recinto. 
Um pequeno aviso, escrito com negras letras garrafais,
informa os presentes que o exterior se encontra fechado.
A cor branca da pequena placa contrasta com o vidro atrás dela.


O mundo está fechado. 
Permaneça.
Não se arrisque. 
Ele é ignorado. E ignorado,
afirma o quão ignóbeis são as pessoas 
que não percebem a profundidade
de suas proféticas letras.

FECHADO. 
Ele grita. 

FECHADO. 
Grita o aviso.

Em vão.

Mas eu não.
Eu observo seus dizeres.
Suas sábias palavras. Sua sábia palavra.

E escrevo, aos ignorantes leitores, 
este pequeno texto. 

Para que, a partir de agora, passem 
a prestar mais atenção nestes pequenos 

sinais.



depois não sabem... depois perguntam. 

O porque de acabar morrendo. 
Uma hora ou outra.... 


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