domingo, 19 de setembro de 2010

Escada de emergência


Introdução

Escada de emergência. Cinza, dura, áspera, coberta por uma camada suave de poeira.
Uma garota desce com fones de ouvido. Close nos sapatos, surrados e na barra da calça, rasgada. Para, olha para cima. Eco, um latido de cachorro em algum andar. Porta batendo. Aceleração. Árvores, balançando com o vento. Algumas nuvens vagam brancas perdidas pelo céu azul. Despertador, mão, escova de dentes. Close nas olheiras. Cachorro latindo. Noticiário das seis e meia da manhã. Ontem houve um acidente, três pessoas morreram na hora. Água fervendo, café. A garota ajeita o cabelo no espelho da portaria. Uma empregada limpa o lado de fora de uma janela, risco necessário. Papagaios na antena. Avião voando ao contrário. Sol nascendo, nascendo. Clarão. Grito, grito. Escova de dentes. Cospe a espuma. Risada.

Cena I

Um homem sentado numa cadeira em um bar de esquina. Perfil, barba por fazer. 
O jornal dobrado ao lado de seu braço esquerdo.

1

Ei, Ei, bom dia. Me traz um suco de laranja ?
Ah, e um maço daqueles vermelhos ali.

2

Ok Ok, mais alguma coisa seu Carlos ?

Carlos

Não, por enquanto não. Obrigado.

Acomoda-se confortavelmente no encosto. Escorrega a cintura para frente.
Tira os óculos escuros e os apoia na mesa. Pega o jornal. Primeira página, mais uma notícia irrelevante. Época de eleições, qualquer besteira vai pra primeira página. Troca de dinheiro vivo na ante-sala do presidente. Nada importante. Corrupção ? Quem liga ? Passa um carro com um alto falante anunciando alguma coisa ridícula, algum candidato. Árvores balançando com o vento. Algumas nuvens vagam brancas pelo céu azul. Obituário, no fim do primeiro caderno.
Mario Pereira Gomes. A família convida para a missa de 7o dia.
Carlos inclina a cabeça para o lado, para baixo. Coitado do velho Mario.

2

Aqui o suco.

Carlos

E o cigarro, trouxe ?

Carlos coça o olho. Olha para o lado de fora. Passa uma garota usando um vestido branco, curto.
Sacolas de supermercado machucando seus dedos frágeis. Do outro lado da rua, um velho de olhos azuis espera o sinal abrir. Nenhum carro passa. Mas ele espera mesmo assim. Respira fundo. Barulho do copo batendo na mesa. Agudo, “clang”. O garçom volta ao balcão e pega o maço de cigarros. Entrega. Carlos dobra o jornal e o coloca de volta na mesa, ao lado dos óculos.
Sacode a cabeça, agradecendo. Coitado do Mario. Árvores, nuvens. O velho atravessa.
Entra no bar. E senta na mesa ao lado. Respira fundo. Sorri para a câmera. Carlos sacode o copo de suco de laranja, já quase vazio. Barulho do gelo batendo no vidro, “clang, clang, clang”. Tela escura. Interferência. Notícias misturadas, várias vozes. Interferência.
Crimes. Corrupção. Barulho de batida de carro.

Tavares ( o velho)

Oi, perdão, você poderia me informar que horas são ?

Carlos

Horas ?

Tavares

É, As horas, sabe que horas são ?

Carlos levanta o braço para olhar o relógio. Uma de suas sobrancelhas inclina-se alguns graus, em sinal de dúvida. Com o outro braço ele dá alguns petelecos no vidro redondo.

Carlos

Estranho, meu relógio parou.

O velho morde a parte interna de sua bochecha e aperta os lábios, levemente angustiado.
Estica o braço para chamar o Garçom. Close no aviso de proibido fumar. Do lado de fora
passa um homem alto passeando com seu cachorro poodle. Cadela ? Cachorra ?
Proibido fumar.

Tavares

Ah, sim, obrigado de qualquer jeito.

Último gole. Estala o pescoço, sorri para o velho.

Carlos

Hei, hei, garçom, traz a conta, por favor ?
Qual seu nome senhor ?

Tavares

Meu nome é Igor. Mas todo mundo me chama de Tavares. É mais fácil lembrar.
Você vem muito aqui nesse bar ? Não lembro de ter visto você antes por aqui.

Carlos

há, há, engraçado, eu ia perguntar a mesma coisa.
Você não tem cara de freguês novo mesmo não.

Tavares

Ah, obrigado eu acho.

Em Câmera acelerada, o garçom traz a conta. Carlos se despede de tavares. Levanta.
Do lado de fora, sua primeira ação é pegar o isqueiro e colocar um cigarro na boca.
A velocidade da câmera volta ao normal quando surge o fogo. Close no fogo, azul, laranja, vermelho e amarelo. Barulho de algo fritando. O cigarro acende, fluem as primeiras fumaças.
Olha para o lado, o cara alto está pegando os detritos do cachorro. Tuc, tac, muda o anúncio no pequeno outdoor rotativo na outra esquina. É proibido fumar.

Carlos

Coitado do Mario.

Pensa, em voz alta. Piscar de olhos. Um garoto assusta um grupo inocente de pombos.
O poodle late ao ver os pássaros voando. Tavares ri de alguma besteira que o garçom fala.






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sábado, 11 de setembro de 2010

é só isso mesmo.

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As brancas paredes soam ásperas
enquanto observo-as sem esperança
encarando amargurado este vazio
revira em meu estômago aquela ânsia.

aquela que pulsa e faz tremer meus pulsos
cada vez que tento invocar do fundo
algum impulso que me faça avançar
em palavras e significados
muitas vezes desconectados.
o sentido não é o importante.
nada faz sentido afinal de contas...

E nada mais será como as folhas caindo das árvores
no outono de mais um ano que se passa
despercebido
incompreendido
ou mais algum adjetivo.

acabo destruído, depois de tanto tempo a pensar em tentativas de poesia.
não, não nasci para isso.
Mas é como um vício.
não nascemos para os vícios.
Eles se impõem, mais fortes do que todo o resto
mesmo que por alguns poucos instantes
e só.

Já me sinto melhor.

Ignoro a métrica clássica, culta.
Como soam os sons das palavras é o que mais importa.
mesmo que não fique bom
mesmo que à ninguém agrade
mesmo que o que escrevo agora não seja
tão bom quanto o que já escrevi
em outro momento de minha vida

A minha opinião pode mudar, se transformar.
posso ser outra pessoa, ou coisa.
mas o vicio continua.
imposto pelo entorno
o entorno que um dia irá me devorar
embora possa eu não ser mais
eu mesmo quando isso acontecer.

quem liga ?
bom, ruim...
olha, pra mim tanto faz.



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domingo, 5 de setembro de 2010

Molly's Chambers ?

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Hoje me apaixonei pela garota que usa um lápis preto de tabuada.
A garota que gosta de "Kings of Leon". Conheci ela no avião, ou no cinema.
Provavelmente os dois. Fugimos para a Guatemala.
Bebemos tequila e fumamos charutos cubanos. Assistimos ao grande show
sem pagar nada, olhando, pelo elevador panorâmico.
Nos beijamos sob o soar do alarme.
Mas não sem antes sacanear um vendedor inocente e dançar "twist" com a música
dos auto-falantes da loja de infinitas variações.

Por alguma razão, sua aparência parecia inconstante.
como que, com o tempo ou por alguma fuga nossa, irrelevante, ela tivesse que mudar.
Poderíamos estar fugindo de alguma coisa, ou alguém ?
Lembro de seus cabelos longos, deles compridos ou ruivos ou negros.
Lembro de suas roupas, infindáveis cores.

"Kings of Leon" ?  Talvez fosse outra banda. Ouvimos tantas coisas...
Desde "Doris Day" até "Elvis", passando por "Lester Young",
"Miles Davis", "Frank Sinatra", "Duke Ellington",
"Beatles", "Franz Ferdinand"...
"Devendra"...
o resto eu não sei, ou... ah, deixa pra lá.
Enfim...

Acho que vivemos muito tempo. Fugimos muito tempo.
Eu não sabia de onde a conhecia  (a garota do lápis).
Era como se já tivéssemos nos encontrado antes,
ou em outra vida.
Sem que soubéssemos.
Lembro de falar-lhe sobre outra garota...

"Eu estava aqui, indo em direção à escada rolante, distraído, olhando para meus pés,
talvez triste, não lembro, quando, ao levantar meus olhos...
encontrei a garota que pareceu, por muitos meses, ou anos... a mais linda.
Nossos olhos se amaram opacos, nublados e distantes poucos
segundos, ou milésimos.... como se trocássemos cartas.
Cartas com seu perfume. Telegramas ? O código morse de nossa pálpebras.
Virei, tímido, o meu rosto e pisei no chão que descia, da escada.
No meio do caminho olhei para trás mais uma vez.
Para nada. Ou tudo.
Virei só pra encontrar um espaço vazio onde ela estava antes." disse.
"Talvez ela fosse você" continuei.

E a garota do lápis só ria.
Nesse dia, como estávamos bobos.
Foi logo antes de entrar na loja... e dançar.

Você, leitor, ouvinte, pessoa. Você acredita em sonhos conjuntos?
Por alguma razão eu, acordei com a certeza de que essa garota do lápis
deve existir de verdade.
E um dia, espero,
nos lembraremos de nosso sonho, nossos sonhos...
E nos encontraremos.

Com os olhos opacos, nublados...


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segunda-feira, 30 de agosto de 2010

brotamento

psicografo palavras de meu prórpio subconsciente em pura profusão de letras e sentimentos .  tudo, tudo, tudo que eu não penso e interpretado pela a ausência de mim mesmo. não penso. logo, não existo. quer dizer. o que eu penso não se aplica. não aqui. eu simplesmente teclo as teclas ou mexo a caneta. psicografo minhas próprias palavras que brotam ou jorram de minha boca ou nem isso. palavras que escutei a um bom tempo
ou nenhum. algo que gritam na sala de estar. é tudo estado de esp´rito nem sei se acerto a ortografia.
o que é ortografia ?
 ortografia é mais um impedimento para nossas... qual a apalavra ? não sei. expressionismo. lembram de dadaísmo? vi simpsons hoje de manhã. fim.

domingo, 15 de agosto de 2010

até no banheiro ?

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Vovó... o que é um anjinho da guarda ?
porque, sempre que eu me machuco falam que eu tenho um anjinho da guarda muito bom.
anjinho da guarda. bom, anjinho da guarda é um anjinho que fica sempre
bem pertinho de você,
pra te proteger, pra tomar conta, pra cuidar de você...
o tempo todo vovó ?
É, meu filho, o tempo todo.
Até no banheiro ?
Claro.
não sei se eu quero ele comigo no banheiro.
a, menino, que isso ?
a uns meses atrás você fazia coco de porta aberta
e pedia ajuda pra tomar banho.
é, vó, mas eu tenho sete anos agora.
sou bem grandinho, pré adolescente.
besteira, garoto. você ainda é bem pequeno.
mas vó, esse meu anjinho nem é tão bom assim...
oi ?
É, vó, eu me machuco o tempo inteiro.
pelo menos você nunca quebrou nada.
é, vó, mas olha esse machucado aqui no meu joelho...
tem até uma gosminha.
Olha, vó...

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terça-feira, 3 de agosto de 2010

lá no centro

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Dois homens de terno em um cafézinho do centro da cidade.
Cavé, pra quem conhece o lugar.


E então, como foi a reunião das oito da manhã, cara ?
Ah, o de sempre, aquele gordo escroto ficou falando de plano de metas e plano de metas e plano de metas.
Que bom que eu não fui então, não ia aguentar ouvir isso de novo.
Ah, mas ele vai falar de novo na reunião das dezasseis horas.
Nessa, graças a Deus, eu não vou também. me chamaram lá em cima. pra discutir um projeto meu de um bom tempo atras.

poxa, rapaz, que sorte a sua.
não sei, tenho medo de estragar alguma coisa. ando muito estressado, sabe ?
ah, sei, tem aquele rolo lá com seu filho que tá indo mal na escola né ?
nah, não é isso não. ir mal na escola é normal, eu acho. bom, eu ia. e cheguei onde cheguei, né ?
mas podia ser melhor.
sempre pode se melhor.
sempre. mas, então, porque o stress ?
ah, a princípio, essa coisa toda de rotina.
mas, pensando muito  a respeito cheguei a conclusão que,
na verdade,
o problema todo é culpa do eclair de creme.

eclair de creme ?
é, isso mesmo. mas, enfim, tenho que ir agora. até mais.
foi bom encontrar com você.
a gente trabalha no mesmo andar. a gente se encontra todo dia.
só figura de linguagem.
então não foi ?
foi, porra, sempre é. Só que já falo isso isso mesmo sem querer.
boa educação, sei lá. algo do tipo.
(levanta)

ei, porra, não vai pagar a conta não ?
eu paguei na ultima vez, porra. sua vez.
ah, tá. que merda. (resmunga)
Ei ! moça, me dá dois eclairs de creme pra viagem ?
eles não são um problema ?
é complicado.
depois explico.
traz a conta junto, viu,  moça ?
...

quinta-feira, 15 de julho de 2010

sanguessugas

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QUE SILÊNCIO
Puxa, é mesmo
mas agora estamos falando
acabando com o silêncio
não tem mais aquele zumbido
nos filmes é comum colocarem um
barulho grave em cenas sem som
tentando fazer o efeito que o silêncio faz
o silêncio não é a ausência de som.
O silêncio é um barulho.
Confortante. Solitário.
Carente. Ele demanda nossa atenção.
Como uma criança recém-nascida.
recém nascidos não demandam nada.
só gritam.
fazem barulho.
A noite é silenciosa.
Mais do que o dia.
A noite é uma criança.
Mentira, cara, a noite é barulhenta.
Mas diferente.
Sempre tem barulho e silêncio.
Não. Pode ter silêncio sem barulho.
Mas não tem barulho sem silêncio.
Puxa, e você devia pensar antes de falar, que tal ?
Você já bebeu quantas cervejas ?
Ein ?
A, umas quatro.
Quatro... e você já tá falando
essas merdas todas ?
que merdas ?
Ok, não tem barulho sem silêncio nem silêncio sem barulho.
Se não tivesse barulho como saberíamos o que é o silêncio ?
Já pensou o que um surdo acharia de nossa conversa ?
Ish...ufa, ainda bem que ele não ia poder ouvir. HAHAHA !
EI NÃO É ENGRAçADO NÃO.
Minha avó conhece um cara que ficou surdo.
Como ?
Conhecendo, oras.
Não ! há... você bebeu também. Como ele ficou surdo ?
Escovando os dentes...
Eita. Mas como ?
Não importa. Só importa que depois ele aprendeu leitura labial
e daí ?
Vai que tem algum surdo lendo a gente ?
Nossos lábios,
nossas palavras ?
como ? só tem a gente aqui...

Será que realmente faz silêncio na mente do surdo ?
Sem barulho não tem silêncio.
Nós só somos surdos mesmo quando morremos.
você sempre fala essas coisas... meio mórbidas.
Sempre tem o barulho dos nossos pensamentos.
Por mais que tentemos não pensar.
O pensamento sempre volta.
E volta.
Se continuar assim a gente vai acabar entrando em outras
discussões bacacas.
é... melhor parar mesmo.
essa barulheira toda me deixou cansado.
desliga a televisão.
e o aparelho de som.
os leitores podem ficar... não dá pra ouvir
os barulhos deles.
ei você... para de comer tanto doce... você engordou um pouco.
com quem você tá falando ?
a... nada não.
apaga as luzes, amor ?
ok.




e quando a gente sonha ?
que barulho faz ?
acho que não é nem silêncio nem barulho.
acho que é nada.
a gente só descobre depois.
ei, você tá aí ?
amor ? tá acordado ?
puxa... 

que silêncio.




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