segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

clarividência

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Sentado sobre o colchão, sentado sobre o lençol, olho para ela enrolada nele, enrolada no lençol como algum tipo de mamífero hibernando no inverno se enrolaria em folhas ou terra. Hibernando no inverno artificial de meu quarto. Olho para o lado de fora da janela, um pássaro me observa, pousado dentro de um dos losangulos da telilha da varanda, que está lá para que meu irmão não caia nove andares. O pássaro olha para mim, como se me fotografasse, como se me filmasse. Olho para o lençol azul, levanto, abro uma gaveta, remexo o conteúdo. Outra gaveta, outra, o armário, subo na cama e passo a mão pela prateleira mais alta. Nada.


-- Que você tá fazendo? 


indaga-me o lençol


-- Procurando uma coisa.
-- Isso eu percebi. Que coisa?
-- Minha câmera, procurando minha câmera.


Reviro uma bolsa encostada em um canto.


-- Câmera? Pra levar pra Paquetá?
-- Não, para usar agora. Queria acordar você te filmando. Achei que seria fofo.


Alguma movimentação se inicia e de dentro de todo aquele pano surge um rosto, surgem olhos castanhos quase escuros olhando para os meus.


-- Mas eu já acordei, você já me acordou, fazendo barulho aí
-- Sabe, você até que tem razão. Então... Bem, não quer dormir mais um pouco?


Procuro dentro de bolsos de bermudas mal dobradas pelo armário. E encontro a máquina bem embaixo da cama. Como se durante a noite ela tivesse tentado chegar até mim, como se ela tivesse previsto que seria necessária. Quando retorno lá de baixo, o rosto voltou a ser lençol, como se nunca tivesse estado lá. Uma montanha de pano azulado amassado como um mar revolto. Aperto o botão e vejo o mundo através de um pequeno, pequeno retângulo.


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quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Uma

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Ela me disse Ela me disse
que um sorriso vale por mil palavras
que um olhar pode ser um livro
inteiro
que uma palavra
pode ser muito mais
do que só Uma

Acho graça, sorrio
olho ela nos olhos, castanhos
escuros

E falo que é verdade
que tudo é verdade.



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sábado, 15 de janeiro de 2011

lá fora



E foi como uma peça, uma peça sem roteiro ou ensaios prévios, como qualquer outra coisa acontecendo a cada instante normal que desaparece ao correr despercebido e ficar para trás. O carro balançava ao passar por cima das irregularidades comuns de uma estrada de terra, avermelhada, e eu brincava com o golfinho. De repente um barulho, vindo lá da frente, um quase não barulho e meu pai para, desliga o motor. Abre a porta, desce, abre o capô, e olha para minha mãe dentro do carro, com algum tipo de dor no rosto. 
Ajudo ele a levar o carro para o acostamento, guio o automóvel enquanto ele o empurra. Minha mãe sentada do lado assiste, um cigarro aceso na mão fora, apoiada na porta. Nenhum vento, a fumaça sobe reta e sorrio segurando o volante entre meus pais. Ao lado da pista, uma colina, cheia de folhas caídas, uma pequena floresta úmida com algumas árvores cortadas. 
Pronto, ele vai até a mala, pega o triângulo vermelho, aquele que brilha no escuro e o coloca a uns metros para trás do carro, volta, diz algo no ouvido de minha mãe. Ela concorda. Não entendo nada, fico ali segurando o voltante e sorrindo. Aperto a buzina e eles levam as mãos aos ouvidos, como advertência, recebo um leve toque na mão direita e um olhar de reprovação. Ele segue, caminha para frente sozinho pela beirada da pista de terra. Já é quase por do sol e logo vai estar escuro.
Porque você não vai brincar um pouco lá fora, filho? 

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

rede

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Acordo de olhos bem abertos, como se por alguma estranha razão estivesse curado de algum tipo de doença incômoda. A poeira paira iluminada de leve pela luz que passa fraca por entre a cortina de pano fino avermelhado. Respiro fundo e escuto o chiado agudo da asma no fundo de meu peito. A poeira na mesinha ao lado de minha cama, a poeira pelo chão, a poeira dentro dos armários, a poeira nos meus sapatos encostados na parede. Poeira, poeira, poeira. É difícil de respirar. Saio do quarto para um espaço mais aberto. É cedo, bem cedo. Todos os adultos dormem na casa. Dormem até tarde. Respiro fundo, chiado. Puxo meu cabelo para baixo, vou no banheiro. Tento ouvir alguém falando ou andando, nada. Só meu pai roncando, uns pássaros animados e as folhas atacadas pelo vento. Meu pai sempre ronca. De novo, uma varanda. Essa tem o chão coberto por azulejos vermelhos escuros e frios que percebo com os pés descalços. Pilastras quadradas de tijolos cobertas com uma massa áspera atravessam o verde do plano de fundo. Entre uma delas e a parede branca da casa, uma rede comprida balançando como as folhas na pequena árvore ao lado. Resolvo subir nela por causa do frio do chão, os braços pra fora para me empurrar de um lado para outro. O conforto, os passarinhos e as folhas me colocam para dormir e acabo tirando um cochilo de novo.

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coloco esse texto aqui por perceber a estranha semelhança entre ele e o colocado anteriormente, sobre o afogamento. o ritmo, Talvez. engraçado, porque este eu escrevi a um mês mais ou menos e o outro foi a quase um ano inteiro. nem me lembrava dele até lê-lo um dia antes de postar aqui. de qualquer maneira essa nota de rodapé é mais um lembrete para mim mesmo. Para que me lembre do que o Vitor falou no caminho pro metrô e de todas as aplicações do comentário.

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sábado, 27 de novembro de 2010

lembrança

A visão embaça, a cabeça abaixa, levanto-me e escorro para a direita.
As coisas se repetem, as coisas se repetem. Já começou? Já começou?
Escuto falarem de novo. Já começou? Não respondo. O mundo já não existe mais.
Já não existe mais. Existe mais. Existe mais do que era o mundo.
A pulsação intensifica dentro das artérias. Doce aceleração.
A neblina me engole, me aperta. Meu pulmão se expande, meus olhos se fecham.
O escuro não dura muito. Luzes profanam o silêncio da minha mente.
Dou mais três passos que desconheço. Me ajoelho, me disseram depois.
Água brota das paredes agora. A água jorra das paredes.
Meu pulmão ainda pulsa expandido. O corpo sacode no meios das ondas.
Repentinamente a água rouba o lugar da neblina. Estou no Oceano,
Infinito em todas as direções. É tudo real, estou molhado e tudo mais.
Canso de nadar, muito tempo se passou. Levanto, de pé mergulho.
O cansaço não me permite respirar. Não consigo respirar.
Engulo água no desespero do afogamento. Mas não me molho por dentro.
Sinto sede, eu não me molho por dentro. Sinto sede. As coisas se repetem.
Sinto mais sede. Sinto a morte e a morte chega. De novo estou cercado, tudo escuro de novo.
Acho que está escuro, acho que eu morri. Me aperto contra o chão como um animal
alucinado, faminto. Sede. Abro meus olhos e a água se foi. 
Voltei, digo para as pessoas em volta, Meus amigos. 
Um deles sentado no chão com sua coroa dourada olha pra mim.
Conversamos por horas. Horas. Ele é pequeno e então ele é grande. Ele se transforma.
Se transforma em uma churrasqueira. Abro meus olhos. Mesma cena, tudo azul.
Choro em baixo d'água pelo pequeno rei meu amigo. O lamento não é ouvido.
Nado para outro ambiente, o que é que eu tenho em mente? Nada, estou vazio.
Vazio, vazio, vazio. E isso me faz sentir ser como uma água viva. Molenga.
Eu sou uma água viva. Respiro aqui agora. Sou parte no oceano.
Aqui no fundo o fundo é raso. O sol ainda ilumina algas compridas
e anêmonas vermelhas me recitam poesias azuis. Meus amigos são todos peixes.
Choro por eles. Não sou ouvido. Me deito no fundo. Pessoa de novo.
Voltei, digo outra vez. Olho para eles e eles me olham.
A água escorre para o teto. De cima me ameaça. Palavras surgem.
As coisas se repetem. Profetizo deitado no macio. Sobre meios de transporte talvez.
Afirmo fatos surreais e tudo parece desenhado por Liechtenstein.
A garota me olha, me encara, sem alma. As coisas se repetem.
Quanto tempo se passou de verdade? Sinto a sede de novo.
Sento, deito, olho para o teto e escorro, liquidifico.
Sacudo minha cabeça. Rio do universo de todos eles.
Rio, e só observo. E só.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Vai você. Vai?

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Ontem ele chorou, vendo um filme no computador do quarto. Encontrei ele na rua indo para a locadora e me inclinei para tentar reconhecer o nome ou alguma imagem dentro da sacola de plástico esbranquiçado. Mas não vi nada, só um agrupado de letras e cores embaçadas. Uma Letra B grande no centro da capa do DVD. Passou, apressado, atravessou a rua sem olhar pros lados e virou a esquina, em direção a locadora, eu acho. Pareceu ser o mais provável. Eu sei que não devia. Eu sei que não devia olhar para a casa dos outros pela janela. É feio, é errado. Dizem que é, mas todo mundo olharia, se encontrasse algo interessante onde assentar os olhos. Aposto que se eu começasse a trocar de roupa sem fechar as cortinas com ele lá no quarto dele, lendo um livro ou vendo um filme, como ele sempre faz de noite... Eu aposto que ele ia ficar me olhando, que ele ia acabar se escondendo pra ficar me olhando todas as vezes que chegasse do banho embrulhada na toalha. Toda a vez que fosse até a janela fumar um cigarro no meio da noite, escondida de meus pais. Eu ia fingir que não sabia. Ia fingir que ele não estava lá, que ele não estaria lá. Engraçado isso. Quando falamos de um futuro pensando em como seria viver ele, bom, pelo menos eu, acabo misturando palavras no passado com as palavras no futuro, parece errada a concordância. Você se importa? 

Não, não soa tão mal assim. continua, vai... 

Não me olha assim, aposto que você faria o mesmo se tivesse um vizinho de prédio da frente que nem o meu, sua dissimulada. 

Há, é, com certeza que eu faria isso sim, com certeza.

Atá, então não falo mais também, fica me olhando como se eu fosse uma maluca, uma safada. 

Fico nada. Vai se foder vai. 

Eu não, vai você.


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quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Laço

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Você ri das besteiras que eu falo
diz que não sou maluco
que isso tudo é só fingimento
é besteira minha.
Penso que essa loucura
é como uma máscara
que visto quando estou assustado
e que sem saber, estou sempre assustado
Penso que eu te amo
E sei que você sabe disso
sei que você me conhece melhor
melhor do que eu mesmo
mesmo que não me conheça
tanto quanto pensa
e aí eu mordo seu braço.

.(26 de novembro de 2010)