.
A vida canta uma música
embaçada e fora de ritmo
vou vestir minha máscara de lobo
e uivar o dia
uivar durante todo o dia
Ser o que não sou para
que seja eu de verdade
Vou vestir minha camisa de força
invisível e mal feita
para conter minha profana loucura
Uivo para a lua quente de um céu sem estrelas
Uivo para o sol frio encoberto de cinza
Vou vestir minha mascara de pessoa
e chorar de noite
Ser o que não sou para
que seja eu de verdade
Essa camisa que só me
aperta por dentro
e não me deixa dormir
quem sou eu ?
me diz.
me diz.
o que eu fiz ?
Do falso azul de mim mesmo
por baixo navego sem vento.
aqui é onde o barulho é mais alto
aqui é onde as coisas selvagens estão
.
domingo, 17 de outubro de 2010
domingo, 10 de outubro de 2010
Toda a nossa incompletência
.
Parte I
Parte I
Minúsculos detalhes metálicos em seu pulso chocam-se agitados enquando ela mistura o açúcar no quente café com leite usando uma pequena haste plástica descartável. O úmido vapor flui lento de dentro da xícara e aquele cheiro sempre agradável é logo previsto pelo cérebro já ansioso por cafeína.
Logo em frente sua amiga recém-chegada ao recinto puxa ruidosamente a rústica cadeira marrom com o encosto de palha trançada, Bom dia, ela diz.
Seus olhos são alongados e quase não se vê direito a cor.
Os cabelos incrivelmente lisos avançam até logo perto da metade de suas costas e a franja é cortada reta, logo acima de suas sobrancelhas finas recém-feitas.
Bom dia. E aí, como foi lá? Encontrou algum quadro bom?
Uma máquina fotográfica dependurada no encosto da cadeira balança com a movimentação constante dos garçons. Não, nada.
Quer dizer, sim, mas nenhum que combine. Nenhum como eu queria encontrar.
Oi, oi, me traz um chocolate quente?
A mulher do café com leite também é morena.
Obrigada, diz.
Cabelos curtos escondem suavemente a gola alta da camisa social que pegou
na casa de seu namorado.
na casa de seu namorado.
Ela Leva a haste até a boca, para analisar a temperatura do líquido doce.
Seus lábios se comprimem e marcam o plástico com um pouco de batom vermelho.
As duas dão as mãos por cima da mesa, Quanto tempo, não é ? É?
A gente não se viu semana passada? Viu?
É, você não lembra? Acho que não, desculpa.
Tudo bem, eu também nem lembro direito, quando eu cheguei naquela festa você já tava lá a um tempão, distraída, distraída.
Ah, sim, é, eu me distraí mesmo naquela festa. Soltam as mãos.
A fotógrafa leva a xícara até a boca.
O cheiro intenso adentra suas narinas e alegra sua existência.
É um de seus cheiros favoritos.
Você parece meio melancólica, não sei, aconteceu alguma coisa?
Não, nada, só pensando. No que?
Numas esculturas de uma exposição pequeninha que eu fui ontem. Bonitas?
Não muito. Só, diferentes, incomuns.
Vou fazer uma matéria sobre elas, realmente me afetaram.
Acho que são de uma arte das mais puras e sinceras que eu já vi.
Simples, mas, profundas ao mesmo tempo.
Como aquele quadro da Tarsila, da mulher com um pé enorme?
Não, como, como... não sei, qual o nome daquele compositor que ficou surdo?
Não sei.
Antigo, ah, sim Beethoven, isso.
A pele de seu braço é branca e leve, algumas varias pequenas pintas pretas marcam insignificantes a estendida brancura. Sorri com seus finos olhos.
O garçom coloca o chocolate quente em sua frente.
O vapor úmido flui lento de dentro da xícara branca sobre um pires também branco.
Uma haste de plástico idêntica a outra apoiada sobre a porcelana.
Enfim, acho que é, de certa forma, semelhante as últimas músicas do Beethoven.
Eram esculturas feitas nas aulas de arte de uma escola para cegos.
Rostos e formas do jeito que as mãos os mostraram aos “escultores”.
Bonito. Simples, diz.
Tirou foto delas?
Não, esqueci minha máquina lá na casa da minha avó no dia que fui tirar as fotos dos gatos dela. Dá mó preguiça só de pensar em ir até lá na barra de novo.
E o meu carro tá na oficina.
O que aconteceu? Ah, o cara do estacionamento VIP esbarrou com ele em algum lugar.
Ai... odeio esses manobristas.
Bebe mais um gole do café com leite, já na temperatura ideal. O suficiente para aquecer sua garganta sem maltratar a língua.
A descendente asiática observa o garoto sentado com a mãe na mesa do lado, brincando com seu carrinho vermelho de design italiano, bebendo refrigerante americano fabricado na América latina.
Mas foi coisa pequena, amanha eu vou pegar ele e... e ir até a barra.
Que merda. É.
Mas, fala mais das esculturas.
Sacode a cabeça, escapando de sua hipnose memorial desencadeada pelo colar da mãe do menino. Oi? Ah, sim, falo sim.
Tinha uma, pintada com tinta preta que era, quer dizer, parecia ser um garoto novinho fazendo bico, mas com a boca aberta. Com os lábios jogados pra frente, finos.
Como se estivesse reclamando de alguma coisa.
Mas, sem nenhuma expressão no rosto que, que encaixasse, sabe?
Todos os rostos eram sem expressão. Ou pareciam falsos, não sei. Falsos sentimentos.
Uma pessoa que nasceu cega, ela sabe que quando sorri os muculos de sua bochecha puxam os lados da boca pra cima, que linhas de expressão ligam o nariz à boca.
Que apertamos nossos olhos e que de vez em quando, levantamos as sobrancelhas quando sorrimos.
Quer dizer, quem é cego pode saber disso.
Quem é cego pode apalpar o rosto de alguém enquanto esse sorri.
Mas, mas. Não sei. É tão estranho isso.
Passei uns bons dez minutos olhando esse negrinho fazendo bico.
E ela leva a xícara de chocolate até a boca.
O cheiro intenso adentra suas narinas.
Doce, denso. Um de seus cheiros favoritos.
A fotógrafa já parece meio melancólica também, pensativa.
Começa. Sabe aquele escritor que eu gosto?
O Lourenço. Sei, você me fez ler os livros dele.
Fiz. Mas você gostou. É, gostei.
Tá, o que eu ia falar é que outro dia eu li uma HQ dele, “A caixa da Areia”, em que em uma parte ele dizia que uma foto pode ser mais realística, mas que um desenho capta mais realidade.
Isso, logo depois de citar outro filósofo que classificou realidade como sendo o modo de ser das coisas fora da mente humana ou independentemente da mente humana.
Sei, inteligente, interessante.
Eu acho que a realidade não é fixa, eu acho que a mente humana é que faz tudo parecer mais certo. Não que tudo pareça certo pra mim, ou pra você. É tudo uma confusão maluca.
Mas, eu acho que as coisas são mais estranhas do que realmente as interpretamos.
Mais incertas. Incompletas eu acho.
A mente humana tem a tendência de completar as coisas baseada nas nossas próprias experiências passadas.
Tipo, se vemos três quartos de um circulo, vamos saber que é um circulo, vai ser um círculo, porque a experiência de vida nos leva a associar os três quartos com a coisa toda.
Tipo, se vemos um pivete na rua, ficamos com medo, porque o passado nos diz que pode ser perigoso, que ele pode tentar nos assaltar.
Mas esses impulsos do cérebro, eles vem da visão, acho que esculpir sem ver, pintar sem ver, escrever sem ver, que nem aquele poeta lá fazia, esqueci o nome dele, é muito mais verdadeiro, mais sincero do que vendo.
Do que você tá rindo? Ah, desculpa, é que eu me lembrei de “Sexto Sentido” agora. Do garotinho escrevendo que queria matar todo mundo quando escrevia de olhos fechados. Escrevendo os seus próprios pensamentos subconscientes direto na folha. É, eu lembro disso. Muito tenso esse filme.
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quinta-feira, 7 de outubro de 2010
desapego
.
No sono me perco
As pálpebras pesam
A letra entorta
o pensamento esgota
dessa vez
termino a poesia
no primeiro verso
mas retorno
quando acordar.
----------------------------------------------------
Estou sem forças
Acordei cansado
Estou sem forças
até pra pensar
seja lá qualquer coisa
Digo Corta,
Concordo acabado
sem nem entender
o significado
Hoje
estou sem forças
até pra levar
adiante
de minhas palavras
a confusão constante
P.S : escrevi em dias diferentes. mas resolvi coloca-las juntas por causa da semelhança dos temas
acredito que possa depois uni-las. Falta só o pedaço do meio. O pedaço em que estou dormindo. Não sei.
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No sono me perco
As pálpebras pesam
A letra entorta
o pensamento esgota
dessa vez
termino a poesia
no primeiro verso
mas retorno
quando acordar.
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Estou sem forças
Acordei cansado
Estou sem forças
até pra pensar
seja lá qualquer coisa
Digo Corta,
Concordo acabado
sem nem entender
o significado
Hoje
estou sem forças
até pra levar
adiante
de minhas palavras
a confusão constante
P.S : escrevi em dias diferentes. mas resolvi coloca-las juntas por causa da semelhança dos temas
acredito que possa depois uni-las. Falta só o pedaço do meio. O pedaço em que estou dormindo. Não sei.
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segunda-feira, 4 de outubro de 2010
impressões da tarde de um sábado
A impressão da incapacidade
é altamente tóxica
e cada vez que inspiro agoniado sobre
sua massa disforme me sinto
fraco e imaginário
em meus estranhos pensamentos
já a tanto tempo radioativos e envenenados
por todo esse esforço desmedido
de fazer o que espero
conseguir ser bom em.
por toda essa tensão no meu pescoço
culpa de tantas razões que desconheço
por causa de meus olhos
abertos na madrugada
olhando para o nada escuro
por causa do branco
da folha de papel
por causa dos lábios
vermelhos
e olhares
quase discretos
vindos de todas as direções
meus estranhos pensamentos
estão radioativos e envenenados.
mutantes e talvez, talvez extraordinários.
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é altamente tóxica
e cada vez que inspiro agoniado sobre
sua massa disforme me sinto
fraco e imaginário
em meus estranhos pensamentos
já a tanto tempo radioativos e envenenados
por todo esse esforço desmedido
de fazer o que espero
conseguir ser bom em.
por toda essa tensão no meu pescoço
culpa de tantas razões que desconheço
por causa de meus olhos
abertos na madrugada
olhando para o nada escuro
por causa do branco
da folha de papel
por causa dos lábios
vermelhos
e olhares
quase discretos
vindos de todas as direções
meus estranhos pensamentos
estão radioativos e envenenados.
mutantes e talvez, talvez extraordinários.
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domingo, 19 de setembro de 2010
Escada de emergência
Introdução
Escada de emergência. Cinza, dura, áspera, coberta por uma camada suave de poeira.
Uma garota desce com fones de ouvido. Close nos sapatos, surrados e na barra da calça, rasgada. Para, olha para cima. Eco, um latido de cachorro em algum andar. Porta batendo. Aceleração. Árvores, balançando com o vento. Algumas nuvens vagam brancas perdidas pelo céu azul. Despertador, mão, escova de dentes. Close nas olheiras. Cachorro latindo. Noticiário das seis e meia da manhã. Ontem houve um acidente, três pessoas morreram na hora. Água fervendo, café. A garota ajeita o cabelo no espelho da portaria. Uma empregada limpa o lado de fora de uma janela, risco necessário. Papagaios na antena. Avião voando ao contrário. Sol nascendo, nascendo. Clarão. Grito, grito. Escova de dentes. Cospe a espuma. Risada.
Cena I
Um homem sentado numa cadeira em um bar de esquina. Perfil, barba por fazer.
O jornal dobrado ao lado de seu braço esquerdo.
O jornal dobrado ao lado de seu braço esquerdo.
1
Ei, Ei, bom dia. Me traz um suco de laranja ?
Ah, e um maço daqueles vermelhos ali.
2
Ok Ok, mais alguma coisa seu Carlos ?
Carlos
Não, por enquanto não. Obrigado.
Acomoda-se confortavelmente no encosto. Escorrega a cintura para frente.
Tira os óculos escuros e os apoia na mesa. Pega o jornal. Primeira página, mais uma notícia irrelevante. Época de eleições, qualquer besteira vai pra primeira página. Troca de dinheiro vivo na ante-sala do presidente. Nada importante. Corrupção ? Quem liga ? Passa um carro com um alto falante anunciando alguma coisa ridícula, algum candidato. Árvores balançando com o vento. Algumas nuvens vagam brancas pelo céu azul. Obituário, no fim do primeiro caderno.
Mario Pereira Gomes. A família convida para a missa de 7o dia.
Carlos inclina a cabeça para o lado, para baixo. Coitado do velho Mario.
2
Aqui o suco.
Carlos
E o cigarro, trouxe ?
Carlos coça o olho. Olha para o lado de fora. Passa uma garota usando um vestido branco, curto.
Sacolas de supermercado machucando seus dedos frágeis. Do outro lado da rua, um velho de olhos azuis espera o sinal abrir. Nenhum carro passa. Mas ele espera mesmo assim. Respira fundo. Barulho do copo batendo na mesa. Agudo, “clang”. O garçom volta ao balcão e pega o maço de cigarros. Entrega. Carlos dobra o jornal e o coloca de volta na mesa, ao lado dos óculos.
Sacode a cabeça, agradecendo. Coitado do Mario. Árvores, nuvens. O velho atravessa.
Entra no bar. E senta na mesa ao lado. Respira fundo. Sorri para a câmera. Carlos sacode o copo de suco de laranja, já quase vazio. Barulho do gelo batendo no vidro, “clang, clang, clang”. Tela escura. Interferência. Notícias misturadas, várias vozes. Interferência.
Crimes. Corrupção. Barulho de batida de carro.
Tavares ( o velho)
Oi, perdão, você poderia me informar que horas são ?
Carlos
Horas ?
Tavares
É, As horas, sabe que horas são ?
Carlos levanta o braço para olhar o relógio. Uma de suas sobrancelhas inclina-se alguns graus, em sinal de dúvida. Com o outro braço ele dá alguns petelecos no vidro redondo.
Carlos
Estranho, meu relógio parou.
O velho morde a parte interna de sua bochecha e aperta os lábios, levemente angustiado.
Estica o braço para chamar o Garçom. Close no aviso de proibido fumar. Do lado de fora
passa um homem alto passeando com seu cachorro poodle. Cadela ? Cachorra ?
Proibido fumar.
Tavares
Ah, sim, obrigado de qualquer jeito.
Último gole. Estala o pescoço, sorri para o velho.
Carlos
Hei, hei, garçom, traz a conta, por favor ?
Qual seu nome senhor ?
Tavares
Meu nome é Igor. Mas todo mundo me chama de Tavares. É mais fácil lembrar.
Você vem muito aqui nesse bar ? Não lembro de ter visto você antes por aqui.
Carlos
há, há, engraçado, eu ia perguntar a mesma coisa.
Você não tem cara de freguês novo mesmo não.
Tavares
Ah, obrigado eu acho.
Em Câmera acelerada, o garçom traz a conta. Carlos se despede de tavares. Levanta.
Do lado de fora, sua primeira ação é pegar o isqueiro e colocar um cigarro na boca.
A velocidade da câmera volta ao normal quando surge o fogo. Close no fogo, azul, laranja, vermelho e amarelo. Barulho de algo fritando. O cigarro acende, fluem as primeiras fumaças.
Olha para o lado, o cara alto está pegando os detritos do cachorro. Tuc, tac, muda o anúncio no pequeno outdoor rotativo na outra esquina. É proibido fumar.
Carlos
Coitado do Mario.
Pensa, em voz alta. Piscar de olhos. Um garoto assusta um grupo inocente de pombos.
O poodle late ao ver os pássaros voando. Tavares ri de alguma besteira que o garçom fala.
.
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sábado, 11 de setembro de 2010
é só isso mesmo.
.
As brancas paredes soam ásperas
enquanto observo-as sem esperança
encarando amargurado este vazio
revira em meu estômago aquela ânsia.
aquela que pulsa e faz tremer meus pulsos
cada vez que tento invocar do fundo
algum impulso que me faça avançar
em palavras e significados
muitas vezes desconectados.
o sentido não é o importante.
nada faz sentido afinal de contas...
E nada mais será como as folhas caindo das árvores
no outono de mais um ano que se passa
despercebido
incompreendido
ou mais algum adjetivo.
acabo destruído, depois de tanto tempo a pensar em tentativas de poesia.
não, não nasci para isso.
Mas é como um vício.
não nascemos para os vícios.
Eles se impõem, mais fortes do que todo o resto
mesmo que por alguns poucos instantes
e só.
Já me sinto melhor.
Ignoro a métrica clássica, culta.
Como soam os sons das palavras é o que mais importa.
mesmo que não fique bom
mesmo que à ninguém agrade
mesmo que o que escrevo agora não seja
tão bom quanto o que já escrevi
em outro momento de minha vida
A minha opinião pode mudar, se transformar.
posso ser outra pessoa, ou coisa.
mas o vicio continua.
imposto pelo entorno
o entorno que um dia irá me devorar
embora possa eu não ser mais
eu mesmo quando isso acontecer.
quem liga ?
bom, ruim...
olha, pra mim tanto faz.
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As brancas paredes soam ásperas
enquanto observo-as sem esperança
encarando amargurado este vazio
revira em meu estômago aquela ânsia.
aquela que pulsa e faz tremer meus pulsos
cada vez que tento invocar do fundo
algum impulso que me faça avançar
em palavras e significados
muitas vezes desconectados.
o sentido não é o importante.
nada faz sentido afinal de contas...
E nada mais será como as folhas caindo das árvores
no outono de mais um ano que se passa
despercebido
incompreendido
ou mais algum adjetivo.
acabo destruído, depois de tanto tempo a pensar em tentativas de poesia.
não, não nasci para isso.
Mas é como um vício.
não nascemos para os vícios.
Eles se impõem, mais fortes do que todo o resto
mesmo que por alguns poucos instantes
e só.
Já me sinto melhor.
Ignoro a métrica clássica, culta.
Como soam os sons das palavras é o que mais importa.
mesmo que não fique bom
mesmo que à ninguém agrade
mesmo que o que escrevo agora não seja
tão bom quanto o que já escrevi
em outro momento de minha vida
A minha opinião pode mudar, se transformar.
posso ser outra pessoa, ou coisa.
mas o vicio continua.
imposto pelo entorno
o entorno que um dia irá me devorar
embora possa eu não ser mais
eu mesmo quando isso acontecer.
quem liga ?
bom, ruim...
olha, pra mim tanto faz.
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domingo, 5 de setembro de 2010
Molly's Chambers ?
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Hoje me apaixonei pela garota que usa um lápis preto de tabuada.
A garota que gosta de "Kings of Leon". Conheci ela no avião, ou no cinema.
Provavelmente os dois. Fugimos para a Guatemala.
Bebemos tequila e fumamos charutos cubanos. Assistimos ao grande show
sem pagar nada, olhando, pelo elevador panorâmico.
Nos beijamos sob o soar do alarme.
Mas não sem antes sacanear um vendedor inocente e dançar "twist" com a música
dos auto-falantes da loja de infinitas variações.
Por alguma razão, sua aparência parecia inconstante.
como que, com o tempo ou por alguma fuga nossa, irrelevante, ela tivesse que mudar.
Poderíamos estar fugindo de alguma coisa, ou alguém ?
Lembro de seus cabelos longos, deles compridos ou ruivos ou negros.
Lembro de suas roupas, infindáveis cores.
"Kings of Leon" ? Talvez fosse outra banda. Ouvimos tantas coisas...
Desde "Doris Day" até "Elvis", passando por "Lester Young",
"Miles Davis", "Frank Sinatra", "Duke Ellington",
"Beatles", "Franz Ferdinand"...
"Devendra"...
o resto eu não sei, ou... ah, deixa pra lá.
Enfim...
Acho que vivemos muito tempo. Fugimos muito tempo.
Eu não sabia de onde a conhecia (a garota do lápis).
Era como se já tivéssemos nos encontrado antes,
ou em outra vida.
Sem que soubéssemos.
Lembro de falar-lhe sobre outra garota...
"Eu estava aqui, indo em direção à escada rolante, distraído, olhando para meus pés,
talvez triste, não lembro, quando, ao levantar meus olhos...
encontrei a garota que pareceu, por muitos meses, ou anos... a mais linda.
Nossos olhos se amaram opacos, nublados e distantes poucos
segundos, ou milésimos.... como se trocássemos cartas.
Cartas com seu perfume. Telegramas ? O código morse de nossa pálpebras.
Virei, tímido, o meu rosto e pisei no chão que descia, da escada.
No meio do caminho olhei para trás mais uma vez.
Para nada. Ou tudo.
Virei só pra encontrar um espaço vazio onde ela estava antes." disse.
"Talvez ela fosse você" continuei.
E a garota do lápis só ria.
Nesse dia, como estávamos bobos.
Foi logo antes de entrar na loja... e dançar.
Você, leitor, ouvinte, pessoa. Você acredita em sonhos conjuntos?
Por alguma razão eu, acordei com a certeza de que essa garota do lápis
deve existir de verdade.
E um dia, espero,
nos lembraremos de nosso sonho, nossos sonhos...
E nos encontraremos.
Com os olhos opacos, nublados...
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Hoje me apaixonei pela garota que usa um lápis preto de tabuada.
A garota que gosta de "Kings of Leon". Conheci ela no avião, ou no cinema.
Provavelmente os dois. Fugimos para a Guatemala.
Bebemos tequila e fumamos charutos cubanos. Assistimos ao grande show
sem pagar nada, olhando, pelo elevador panorâmico.
Nos beijamos sob o soar do alarme.
Mas não sem antes sacanear um vendedor inocente e dançar "twist" com a música
dos auto-falantes da loja de infinitas variações.
Por alguma razão, sua aparência parecia inconstante.
como que, com o tempo ou por alguma fuga nossa, irrelevante, ela tivesse que mudar.
Poderíamos estar fugindo de alguma coisa, ou alguém ?
Lembro de seus cabelos longos, deles compridos ou ruivos ou negros.
Lembro de suas roupas, infindáveis cores.
"Kings of Leon" ? Talvez fosse outra banda. Ouvimos tantas coisas...
Desde "Doris Day" até "Elvis", passando por "Lester Young",
"Miles Davis", "Frank Sinatra", "Duke Ellington",
"Beatles", "Franz Ferdinand"...
"Devendra"...
o resto eu não sei, ou... ah, deixa pra lá.
Enfim...
Acho que vivemos muito tempo. Fugimos muito tempo.
Eu não sabia de onde a conhecia (a garota do lápis).
Era como se já tivéssemos nos encontrado antes,
ou em outra vida.
Sem que soubéssemos.
Lembro de falar-lhe sobre outra garota...
"Eu estava aqui, indo em direção à escada rolante, distraído, olhando para meus pés,
talvez triste, não lembro, quando, ao levantar meus olhos...
encontrei a garota que pareceu, por muitos meses, ou anos... a mais linda.
Nossos olhos se amaram opacos, nublados e distantes poucos
segundos, ou milésimos.... como se trocássemos cartas.
Cartas com seu perfume. Telegramas ? O código morse de nossa pálpebras.
Virei, tímido, o meu rosto e pisei no chão que descia, da escada.
No meio do caminho olhei para trás mais uma vez.
Para nada. Ou tudo.
Virei só pra encontrar um espaço vazio onde ela estava antes." disse.
"Talvez ela fosse você" continuei.
E a garota do lápis só ria.
Nesse dia, como estávamos bobos.
Foi logo antes de entrar na loja... e dançar.
Você, leitor, ouvinte, pessoa. Você acredita em sonhos conjuntos?
Por alguma razão eu, acordei com a certeza de que essa garota do lápis
deve existir de verdade.
E um dia, espero,
nos lembraremos de nosso sonho, nossos sonhos...
E nos encontraremos.
Com os olhos opacos, nublados...
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