quinta-feira, 2 de junho de 2011

Gata


Alguns minutos depois estaríamos entrando em um minúsculo elevador, aquele cubículo de espelhos com uma porta de grade de ferro pintada de dourado. Os andares marcados no concreto vão ficando para cima pouco a pouco. A garota das meias calças ajeita os cabelos quase longos em um nó na nuca.

Benício, de frente para as costas dela, olha, com a cara sonolenta de sempre, como quem não quer nada, para o bolso do short branco, reparando, depois de um bom tempo, o bordado camuflado discreto sobre o tecido. Sorri; meu reflexo também me sorri e o dourado das grades atrai meus dedos como se possuísse um campo magnético. A garota arregala os olhos e segura meu braço, dizendo: cuidado! Sorrio para ela. Sem pensar muito, logo volto a levantar minha mão. Mas, antes de chegar ao meu objetivo o elevador chega ao dele. 

A grade abre e empurramos a porta, saindo da portaria. Começa a tocar uma música de abertura de desenho animado no celular do Benício. Ele atende: Aê, diz. Oi Elisa, dormiu bem ontem? Pensei que você fosse dormir cedo, por causa do teste amanhã. Escuto ela com uma voz bastante raivosa quase gritar bem alto: “Sabe, encontrei seu nome no dicionário ontem... perdido entre os sinônimos de traidor, entre viadinho e filho da puta. Você sabe porque estou falando isso então nem tente dizer que não sabe”; e desligar na cara dele. 

Me arregala os olhos, espantado. Tenho a certeza de que se o conhece-se melhor abraçaria o. Coloco a mão sobre seus ombros. Pergunto o que tinha acontecido. Ele leva a mão a testa, sacode os ombros. Namorada? Não, uma garota maluca que eu fiquei com uma só vez, dormi na casa dela... ela acha que temos algo sério por causa disso. Vive falando que eu usei ela, que pra mim ela é só um objeto. Que para mim, todas as mulheres são. 

Tenso cara. E ela disse que por causa disso vai fazer tudo pra me atrapalhar com qualquer mulher que eu chegue perto. Se ela for boa nisso, acho que vou acabar morrendo. 

Vamos? Pergunta a garota da meia calça. Vamos, respondemos em um coro, concordando. Mais uns passos afrente Benício abriria um enorme sorriso por nenhum motivo em especial. Abriria um sorriso e riria da vida. A risada dele soaria como a risada de quem acabou de ouvir uma piada hilária e demorou para entender. 

Um cara passa de bicicleta, devagar, cantando uma música calma. Adoro essa música, a garota diz. Parece bem melancólica, Benício diz. Ela pergunta: E eu Benício, com o que eu pareço? Parece uma gata, Rosa, parece uma gata.

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