domingo, 10 de outubro de 2010

Toda a nossa incompletência

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Parte I


Minúsculos detalhes metálicos em seu pulso chocam-se agitados enquando ela mistura o açúcar no quente café com leite usando uma pequena haste plástica descartável. O úmido vapor flui lento de dentro da xícara e aquele cheiro sempre agradável é logo previsto pelo cérebro já ansioso por cafeína.
Logo em frente sua amiga recém-chegada ao recinto puxa ruidosamente a rústica cadeira marrom com o encosto de palha trançada, Bom dia, ela diz.
Seus olhos são alongados e quase não se vê direito a cor.
Os cabelos incrivelmente lisos avançam até logo perto da metade de suas costas e a franja é cortada reta, logo acima de suas sobrancelhas finas recém-feitas.
Bom dia. E aí, como foi lá? Encontrou algum quadro bom?
Uma máquina fotográfica dependurada no encosto da cadeira balança com a movimentação constante dos garçons. Não, nada.
Quer dizer, sim, mas nenhum que combine. Nenhum como eu queria encontrar.
Oi, oi, me traz um chocolate quente?
A mulher do café com leite também é morena.
Obrigada, diz.
Cabelos curtos escondem suavemente a gola alta da camisa social que pegou
na casa de seu namorado.
Ela Leva a haste até a boca, para analisar a temperatura do líquido doce.
Seus lábios se comprimem e marcam o plástico com um pouco de batom vermelho.
As duas dão as mãos por cima da mesa, Quanto tempo, não é ? É?
A gente não se viu semana passada? Viu?
É, você não lembra? Acho que não, desculpa.
Tudo bem, eu também nem lembro direito, quando eu cheguei naquela festa você já tava lá a um tempão, distraída, distraída.
Ah, sim, é, eu me distraí mesmo naquela festa. Soltam as mãos.
A fotógrafa leva a xícara até a boca.
O cheiro intenso adentra suas narinas e alegra sua existência.
É um de seus cheiros favoritos.

Você parece meio melancólica, não sei, aconteceu alguma coisa?
Não, nada, só pensando. No que?
Numas esculturas de uma exposição pequeninha que eu fui ontem. Bonitas?
Não muito. Só, diferentes, incomuns.
Vou fazer uma matéria sobre elas, realmente me afetaram.
Acho que são de uma arte das mais puras e sinceras que eu já vi.
Simples, mas, profundas ao mesmo tempo.
Como aquele quadro da Tarsila, da mulher com um pé enorme?
Não, como, como... não sei, qual o nome daquele compositor que ficou surdo?
Não sei.
Antigo, ah, sim Beethoven, isso.

A pele de seu braço é branca e leve, algumas varias pequenas pintas pretas marcam insignificantes a estendida brancura. Sorri com seus finos olhos.
O garçom coloca o chocolate quente em sua frente.
O vapor úmido flui lento de dentro da xícara branca sobre um pires também branco.
Uma haste de plástico idêntica a outra apoiada sobre a porcelana.
Enfim, acho que é, de certa forma, semelhante as últimas músicas do Beethoven.
Eram esculturas feitas nas aulas de arte de uma escola para cegos.
Rostos e formas do jeito que as mãos os mostraram aos “escultores”.
Bonito. Simples, diz.
Tirou foto delas?
Não, esqueci minha máquina lá na casa da minha avó no dia que fui tirar as fotos dos gatos dela. Dá mó preguiça só de pensar em ir até lá na barra de novo.
E o meu carro tá na oficina.
O que aconteceu? Ah, o cara do estacionamento VIP esbarrou com ele em algum lugar.
Ai... odeio esses manobristas.
Bebe mais um gole do café com leite, já na temperatura ideal. O suficiente para aquecer sua garganta sem maltratar a língua.
A descendente asiática observa o garoto sentado com a mãe na mesa do lado, brincando com seu carrinho vermelho de design italiano, bebendo refrigerante americano fabricado na América latina.


Mas foi coisa pequena, amanha eu vou pegar ele e... e ir até a barra.
Que merda. É.
Mas, fala mais das esculturas.
Sacode a cabeça, escapando de sua hipnose memorial desencadeada pelo colar da mãe do menino. Oi? Ah, sim, falo sim.
Tinha uma, pintada com tinta preta que era, quer dizer, parecia ser um garoto novinho fazendo bico, mas com a boca aberta. Com os lábios jogados pra frente, finos.
Como se estivesse reclamando de alguma coisa.
Mas, sem nenhuma expressão no rosto que, que encaixasse, sabe?
Todos os rostos eram sem expressão. Ou pareciam falsos, não sei. Falsos sentimentos.
Uma pessoa que nasceu cega, ela sabe que quando sorri os muculos de sua bochecha puxam os lados da boca pra cima, que linhas de expressão ligam o nariz à boca.
Que apertamos nossos olhos e que de vez em quando, levantamos as sobrancelhas quando sorrimos.
Quer dizer, quem é cego pode saber disso.
Quem é cego pode apalpar o rosto de alguém enquanto esse sorri.
Mas, mas. Não sei. É tão estranho isso.
Passei uns bons dez minutos olhando esse negrinho fazendo bico.
E ela leva a xícara de chocolate até a boca.
O cheiro intenso adentra suas narinas.
Doce, denso. Um de seus cheiros favoritos.

A fotógrafa já parece meio melancólica também, pensativa.
Começa. Sabe aquele escritor que eu gosto?
O Lourenço. Sei, você me fez ler os livros dele.
Fiz. Mas você gostou. É, gostei.
Tá, o que eu ia falar é que outro dia eu li uma HQ dele, “A caixa da Areia”, em que em uma parte ele dizia que uma foto pode ser mais realística, mas que um desenho capta mais realidade.
Isso, logo depois de citar outro filósofo que classificou realidade como sendo o modo de ser das coisas fora da mente humana ou independentemente da mente humana.
Sei, inteligente, interessante.
Eu acho que a realidade não é fixa, eu acho que a mente humana é que faz tudo parecer mais certo. Não que tudo pareça certo pra mim, ou pra você. É tudo uma confusão maluca.
Mas, eu acho que as coisas são mais estranhas do que realmente as interpretamos.
Mais incertas. Incompletas eu acho.
A mente humana tem a tendência de completar as coisas baseada nas nossas próprias experiências passadas.
Tipo, se vemos três quartos de um circulo, vamos saber que é um circulo, vai ser um círculo, porque a experiência de vida nos leva a associar os três quartos com a coisa toda.
Tipo, se vemos um pivete na rua, ficamos com medo, porque o passado nos diz que pode ser perigoso, que ele pode tentar nos assaltar.
Mas esses impulsos do cérebro, eles vem da visão, acho que esculpir sem ver, pintar sem ver, escrever sem ver, que nem aquele poeta lá fazia, esqueci o nome dele, é muito mais verdadeiro, mais sincero do que vendo.

Do que você tá rindo? Ah, desculpa, é que eu me lembrei de “Sexto Sentido” agora. Do garotinho escrevendo que queria matar todo mundo quando escrevia de olhos fechados. Escrevendo os seus próprios pensamentos subconscientes direto na folha. É, eu lembro disso. Muito tenso esse filme.


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