domingo, 4 de julho de 2010

destranca

O vidro do remédio está cheio. O rótulo esconde o conteúdo informando o que o compõe. Confiamos.

O frasco tem um peso agora.
Evidentemente terá outro quando vazio.

Um homem aperta o vidro firmemente por entre os dedos.
O cenário é o banheiro de seu apartamento.
As paredes são cobertas por azulejos de cores básicas, azuladas.
Toalhas de alta absorção estão penduradas em pequenos ganchos brancos de ponta arredondada.

Os dedos do homem são finos e fios claros de cabelo, ou pelo, escapam por alguns poros entre as juntas, entre as dobras. Sua cabeça está parcialmente inclinada para a esquerda enquanto ele presunçoso observa as olheiras que demarcam suavemente seu olhar.

Nos pés, de ossos bem destacados, ele sente o chão molhado. A água vem do chuveiro, recém usado.

E em sua cabeça, seus pensamentos remetem ao início do texto.

Ele espera que o peso varie imperceptivelmente.
Que o tempo esmaeça seus sentidos e que a falta de sentidos ilumine-se formando um clarão branco em sua massa cinzenta eletricamente estimulada.
Deseja não ter de recorrer ao frasco por vezes tão frequentes a ponto de conseguir notar a ausência de seu conteúdo.

Assim, quando surpreso perceber o fim, a última das gotas, saberá que sua saúde se manteve estável durante esse tempo que passará, caso tudo ocorra como o planejado.

Sua dor terá sido dividida de forma equilibrada.

Olho no olho, luz forte. A pupila minúscula.
Guarda o frasco na estante.
Seu braço treme.
Imagina causas absurdas.

Só dois motivos primordiais elevam-se.

Ou trememos de frio ou de medo, pensa.
Então, se não estou com frio, do que tenho medo ?

Uma música toca ao fundo, em outro cômodo
A música é calma, algum derivado de jazz.

Penteia os cabelos.
Destranca a porta.


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