domingo, 28 de fevereiro de 2010

Fritz I

O carro escala calmamente por cima da negra estrada. Uma parede de pedras úmidas e esverdeadas se eleva à direita e um desfiladeiro escuro ao lado esquerdo. A chuva é intensa. E a muito bem treinada visão de Fritz, nosso herói, não é de nada útil nesse momento. A lua brilha cheia com estranha intensidade no céu pouco estrelado. Noites como essa alegram Fritz. É em noites como essa que seus lindos companheiros de trabalho saem de casa. Uma breve olhada para o banco de traz. Sua longa arma de dois largos canos está deitada, relaxando sobre o acolchoado. Sua maleta, vermelha pela ferrugem, está atrás do banco de carona. Presas ao mesmo banco duas facas longas e prateadas iluminam-se fracamente com a lua. E uma grande lanterna amarelada escorrega de um lado para o outro nas fechadas e arriscadas curvas. Trovões soltam gritos guturais ao fundo e raios sobrepõem-se ao brilho lunar. Túnel. Algumas poucas luzes estão parcialmente acesas ou piscando, enquanto que a maioria observa o carro sem nenhuma manifestação aparente. Os freios são ativados. Ele desce do carro e cambaleia até a porta traseira. Alcança a lanterna e uma das bem afiadas facas. Logo ele já está em pé virado de peito para a mala do carro. Fritz segura a faca com os dentes enquanto abre o compartimento. O barulho do atrito metálico machuca os ouvidos, é escuro dentro da mala. Algo grande. Fritz treme levemente com o frio e ascende a lanterna, apontando para o chão. Ao levantar o facho lentamente, a figura antes escura e irreconhecível revela-se como um bezerro inconsciente e machucado. A mala do carro de fritz está avermelhada pelo sangue quente do animal. Como uma mãe abraça o seu filho quando ele nasce, fritz toma o animal em seus braços. E como um médico, Fritz carrega o animal. E como um filho se torna parte do mundo, o animal se torna parte da lisa negritude do chão. Seu carro está a uma distância de aproximadamente 30 metros. Os passos de nosso herói são pesados, ele arrasta seu pé esquerdo. Sua calça jeans está rasgada e suja de sangue. Assim como sua camiseta. Antes branca, agora bicolor. Ele volta ao seu ponto de partida, ofegando. Alcança sua arma. Alcança suas armas. Levanta-se novamente. Carregado. Sua bolsa pesa, cheia de balas prateadas. Seus olhos esverdeados têm as pupilas dilatadas. Os trovões soltam estranhos baixos gritos à distância.

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