segunda-feira, 5 de outubro de 2009

capítulo 2


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Odeio filas.
Odeio mesmo.
E se os ingressos acabarem antes que eu chegue ao caixa?
Essa fila parece não andar.
Tédio.
Onde aquele cara foi?
Já faz algum tempo desde que ele saiu.
Tem fila pra comprar ingresso...
Deve ter fila pra comprar o refrigerante também.
Estou com um pouco de fome.
Tenho dinheiro?
Será que aquele cara vai trazer pipoca também?
Não aquento mais essa fila.
Acho que tem alguns trocados no meu bolso.


-Hei, você!
Alguém diz, atrás de mim.
Será que é comigo?
Olho para traz.
Deparo-me com uma garota, olhando diretamente para mim.

-Eu?
Digo, ao vê-la.

-É, você. Você parece com o cara do filme.

-Pareço é?
Respondo.

Ela sacode a cabeça, gentis movimentos verticais, seus cabelos balançam.
Gosto de seu perfume.
Não esperava que algo desse tipo acontecesse.
Não esperava que alguém viesse falar comigo.
Acho que o cara do refrigerante também não.
O que eu digo agora?
Sinto como se não conversasse com ninguém a um bom tempo.
- Bonito?

- Quem?

- O cara do filme.

- Você quer saber minha opinião sobre ele? Ou sobre você?
Seu rosto se dobra em um sorriso e seus olhos fogem para os lados.

- Você não disse que éramos bastante parecidos? Porque não dos dois?


- Isso não importa muito.

- Não?

- Acho que no caso dele, a beleza seria só um extra. Sou uma fã, uma boa fã. Acho que por isso não agüentei vir te cumprimentar... Eu sei que deve ter parecido estranho, uma desconhecida  completa aparecer do nada para dizer que você parece com alguma outra pessoa.
Ela inclina sua cabeça levemente para a esquerda.

- Tudo bem, não foi ruim, alias, devo dizer que também sou um bom fã dele. É bom encontrar pessoas que dividam um mesmo ponto de vista que o seu próprio.

- Qual o seu nome?
Ela pergunta.
Qual o meu nome?
Quer dizer, não posso falar meu nome de verdade, ela vai achar que é alguma brincadeira e vai perguntar outro, de um jeito ou de outro, ou pior, ela vai perceber que eu sou o cara do filme.  Preciso de um pseudônimo, um nome falso. Mas, qual?

- Qual o seu nome?
Ela pergunta novamente.

- Alex. Meu nome é Alex.
 Respondo.
- E você?

- Sol.

- Sol? É um nome bem diferente.

- Brigada, eu acho.

- Essa fila anda muito devagar não é?

- Sim. Odeio filas. Muita gente querendo assistir ao filme.

- Quer ir fazer alguma outra coisa... E ver uma seção mais tarde? Eu, Não sei se eu quero ver esse filme agora.

- Minha amiga foi comprar pipoca e me deixou aqui na fila, esperando ela.

- O meu amigo também.

- Vocês iam ao cinema só vocês dois?

- Vocês iam ao cinema só vocês duas?

- Olha... Eu nem sei como eu vim parar aqui.

- Como assim?

- Não sei. Só sei que estava aqui. Mas... Se sua duvida é quanto a minha sexualidade, Por ir ao cinema acompanhado somente de um outro homem. Digo que este não é o caso. E quanto a você?

- Espera. Ainda não encaixou, você não sabe como veio parar aqui?

- Sim. Quer dizer, Deixa pra lá. Foi só... Foi só uma metáfora. É, uma metáfora.

- Estranho. Mas, Tudo bem. Eu acho.

- Então, eu vou sair daqui. Acho que não estou pronto, pra ver esse filme. Você vai ficar ai?

-Vou.

- Então, quando um cara com refrigerante e com uma cara de “porra, ele sumiu” aparecer. Diz pra ele que eu fui tomar café. Isso. Ok?

- Acho que sim. E se ele não aparecer?

- Ai eu não sei. Ai você deixa pra lá. Bom, bom filme, Sol. A gente se encontra por ai, eu espero.

Tlefone, preciso poder falar com ela, de algum jeito.

- Tem celular?

- Sim sim, boa idéia.


Procuro por uma caneta nos meus bolsos, lembro de sempre carregar uma caneta, para “despejar”, caso eu tivesse alguma idéia boa.
Achei.

- Tô sem papel, você se importa de escrever no meu braço?
- nem um pouco.

Ela parece se divertir ao escrever o telefone no meu braço.
Pelo menos, o sorriso dela continuava lá.
Acho que eu não estou tão enferrujado assim.

- Ótimo.
Ela tem uma caligrafia bonita.
- Eu te ligo depois. Agora, até mais, Sol.

Abaixo-me, para passar por debaixo da linha azulada da fila, ao seguir, dou mais uma olhada para traz, a amiga de sol estava chegando, ela não me viu. Sol estava olhando para ela. Pipoca doce, a amiga trouxera pipoca doce. Adoro pipoca doce. E agora, acho que vou ir comer alguma coisa.

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