sábado, 26 de setembro de 2009

mais sobre Jorge

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       Dia nublado.

      Jorge levanta de sua cama, com lenta dificuldade. Suas pantufas escuras, clareadas pelo tempo, aguardam seus pés, de aparência frágil. Acender a luz talvês não tenha sido um boa idéia, seus olhos pulsam em agonia. Lamento. Péssimo dia.

       Vai até a porta, recolhe seu infomante do mundo exterior. Senta em sua confortavél poltrona. Alguns poucos muitos anos antes, sua esposa sentava-se com ele de manhã. Ao seu lado, o lugar dela, agora, observava-o com seu olhar gelado. Dona Susana. Nunca tiveram filhos. Não homens, como Jorge sempre quisera.
   
      Jornal.

       Mais dois morrem ao reagir a um assalto. Mais um morre embebedado. Jorge não se importa muito, não muito mais. Quando mais novo, acontecimentos como estes abalavam-o com maior intensidade. A morte agora, já passara por ele tantas vezes, era, Velha companheira de bebida. E cada vez eles eram mais próximos.

     Jorge sabia disso, Jorge sentia isso e Jorge não se importava muito.
     Talvês não fosse verdade, por fora talvês ele estivesse saudável, mas por dentro, vazio.
     Não se importa.

     Suas filhas visitavam-o frequentemente, na cabeça delas.
     A diarista vinha quase todos os dias, se a casa não sujasse. Quando a casa suja, parece que ela       desaparece. Impressão, conhecidência, preocupação desleixada. Nada demais. leva seu prato para a pia. Limpo depois. Vou ao banheiro.

     Espelho. Sem os óculos sou um borrão. Água, para limpar os sonhos. Sua bisavó falava isso. Dentadura. Sinto-me menos réptil. Tartaruga. Velha, Lenta. Clássico cínico, sorriso. A, isso trazia boas lembranças. Fingido. Como isso era útil. As pessoas sempre alegraram-se com sua falsa alegria. Talvês fosse verdadeira, mas Jorge não lembra mais como é, a emoção.

     Afogado pela rotina.
     Sufocado pela repeticão.
     cochilo.
  
     como sua poltrona é boa.




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